5 MESES.
entre germes e bactrias.
Parabns pra voc, nesta data querida, muitas felicidades, muitos anos de vida! Viva a Maria de Lourdes! !
! Ela sorriu, deixando  mostra a gengiva mais linda do mundo.
Aniversrio de cinco meses da minha pequena. Eu mesma soprei as velinhas do bolo enquanto ela balbuciava coisas do tipo gugu
dad. Minha filhota est to gostosa!
Infelizmente no posso dizer o mesmo sobre mim. Meu corpo continua igual a uma lasanha, quadrado e compacto, e minha barriga
ainda no voltou para o lugar, o que
levou o Armando a me chamar carinhosamente de meu tribufu. Um doce de marido, isso  que  incentivo. O pior  que ele acha
que entende tudo de mulher, imagina
se no entendesse.
Alm de sentir na pele a trabalheira que d cuidar de uma criana, em cinco meses aprendi uma importante lio: mos de nenm
so um territrio proibido, um campo
minado, ningum, ningum devia se atrever a toc-las. Pena que s quem tem filho sabe essa regra. Claro, nenhuma pessoa 
obrigada a saber. Mas mes de primeira
viagem no suportam, odeiam, viram fera quando algum diz: olha que nenm mais lindo! sacudindo a mozinha do beb em questo.
No pode! Alm de no ter anticorpos,
nenm vive com a mo na boca. Mas parece que nada disso  bvio!
Hoje, no salo, a simptica moa do balco, que passa o dia lidando com dinheiro, existe coisa mais imunda? pegou a mo da
maria de Lourdes umas 574 vezes. Pegou
com vontade. Apertou os furinhos, beijou, apertou de novo, acariciou, esfregou e, terror dos terrores, mordiscou. Mordiscou!
quase tive um ataque. E pior  que,
como sempre acontece nessas ocasies, precisei fingir que estava tudo nos conformes, que nem era comigo, que eu nem estava
beirando a insanidade, morrendo de vontade
de berrar: Larga a mo da minha filha, seu armazm de protozorios! larga!
No fiz nada disso, continuei me controlando bravamente, at porque foi preciso. Logo chegou uma manicure, que trabalha com
cutculas, espiges e, irc, ps e mos
alheios. A moa foi muito agradvel, mas mal falou comigo. Foi logo tascando um beijo na bochecha da Maria de Lourdes.
Ai, filhinha, que lstima! Mil desculpas. queria tanto poder tirar essa baba gosmenta do seu rosto, mas agora no vai dar,
agenta mais um pouquinho sussurrei
no seu ouvido.
Sei que pode parecer desatino, mas enquanto a tal manicure falava, tudo o que eu conseguia ver era a enxurrada de vermes,
bactrias, vrus e cuspe que saam de sua
boca. Quando essa mulher vai virar as costas para que eu possa desinfetar as mos e a bochecha da Maria de Lourdes? Quando?
Ah, sim. Eu transformei meu borrifador de gua, que usava para molhar os cabelos antes de fazer a escova, em borrifador de gua
filtrada para limpar a minha beb
das impurezas do mundo.  s a pessoa pegadora de mos virar as costas que ele entra em ao. Rpido como uma pistoleira, saco
meu borrifador da bolsa e, em questo
de segundos, limpo toda a sujeira e me sinto a me mais cuidadosa e limpinha do mundo.
Sei que j tem gente me chamando de paranica pelas costas. E da? Ningum paga as minhas contas, ningum tem nada a ver com a
minha vida e com os meus hbitos.
Mas no sou eu que vou ficar dizendo isso para as pessoas. O que eu gostaria de ensin-las  que em criana pequena a gente s
faz carinho na cabecinha, e olhe l!
Ou ser que eu estou sendo paranica? Se estiver, tudo bem. Mes de primeira viagem podem tudo.
1 ANO.
palavras balbuciadas ao vento ou dilogos que s me entende.
Nan.
Minha pequerrucha quer dormir? Vem, mame te leva.
Dada a resistncia corporal, perguntei:
Nenm no quer dormir?
Mam.
Quer comer, filha? Por que no disse antes?
Mam!
J vai, mame vai te dar o peito, sua gulosa.
Coc.
Quer ir ao banheiro antes? Filha, voc quer comer ou ir ao banheiro? J sei! O que a senhorita quer  ver os novos azulejos,
no ? Ficaram lindos, mame tem muito
bom gosto.
Mam.
H? O qu? Como? O que voc falou? Ah, Maria de Lourdes, assim voc mata a mame do corao. Armando! Corre aqui! Nossa filha
disse mame! Repete, filha! S
mais uma vez.
Pap!
2 ANOS.
no!
Por mais que passe 99% do meu dia tentando fazer com que Maria de Lourdes diga mame, ela ainda no aprendeu. Alm de um pap
que beira o insuportvel e deixa
o Armando todo prosa, o nico som que ela emite e forma uma palavra inteligvel  no. Por conta disso, os, digamos, dilogos
dentro de casa tm sido, assim, meio
tensos.
Voc ama a mame?
No.
    E o papai?
No.
Ainda bem. Se no me ama no pode amar o pai. Ai dela se dissesse sim!
D um beijo bem gostoso na mame?
No.
E um abrao?
No.
Voc gosta que a mame te faa cafun?
No.
Voc gosta do Fluminense?
No.
Como no? No diga isso perto do seu pai. Ele ficar magoadssimo, o Fluso, tantas vezes campeo,  nosso time do corao!
no importa a diviso!
No!
Est bem, est bem. Hum. voc sabe o que quer dizer no?
No.
Devo confessar que a pediatra j havia me dito que ela ainda no entende o que diz, mas no custava nada confirmar.
3 ANOS.
briga de irmo.
Com o nascimento do Mrio Mrcio no ano passado tive de dar um gs no trabalho. O dinheiro que eu ganhava passou a ser pouco
para alimentar duas crianas e dois
adultos. Decidi correr atrs de clientes maiores oferecendo o servio de assessoria de imprensa, um trabalho que pode ser feito
em casa, sem maiores danos  minha
vida de me e dona de casa.
Mas Mrio Mrcio no deixa ningum trabalhar. Tudo o que Maria de Lourdes teve de quietinha, Mrio Mrcio tem de choro, manhoso,
grudento, agitado. Virou meu xod,
mas s vezes cansa. O menino exige demais de mim. E no tem se dado muito bem com a irm.
Me, o Mio Mxio pegou minha bola.
A reclamao tem hora para comear: acontece sempre que estou no meio de um raciocnio, no meio de uma frase. Para no perder a
concentrao no trabalho, costumo
responder:
Ele  pequeno, esquece isso e vai brincar de outra coisa.
Mas quem disse que eu tenho sossego? Dali a cinco minutos.
Ele pegou minha boneca.
Voc tem vrias,  s pegar outra e no se apoquentar, voc j  uma moa, precisa dar um exemplo.
Ele pegou o meu urso.
Ento pega o aviozinho dele.
Ele quebrou minha boneca preferida.
Quebra o foguete preferido dele!
Ele pegou meu sorvete. E meu chapu e minha espada. E meu livro, e meu balde de praia, e minha bolsa, e meu anel. E minha bola
de vlei.
O que voc quer que eu faa, Maria de Lourdes, o qu? Eu no sei o que fazer! Estou aqui tentando trabalhar e voc vem de
cinco em cinco segundos reclamar de
alguma coisa. Quer saber? Vai l e tira tudo do seu irmo! Lute pelos seus objetivos, brigue pelos seus pertences, o mundo j
est cheio de moscas mortas, no precisa
de mais uma! Cad a sua iniciativa? Ser que precisa de me para tudo? Voc no pode virar uma menina pamonha! E quando eu no
estiver mais aqui para ajudar voc?
Caramba! Pelo ondular das sobrancelhas e pela mudana em cmera lenta da fisionomia, eu sabia o que estava por vir. Droga!
exagerei na dose. De novo. Que coisa mais
difcil educar!
Bu! Bu! Bu!
Ai, filha, vem c! Que me estpida voc tem. Desculpa, vem c, desculpa. Nana nenm, que a cuca vem pegar.
No quero dormir!
O que voc quer, ento, Maria de Lourdes? Mame precisa trabalhar para poder comprar mais brinquedos para o seu irmo no ter
de pegar os seus.
Ento t. Tchau, me. Vou brincar com o Mio Mxio.
primeiro dia de aula.
Hoje eu levei Maria de Lourdes para seu primeiro dia de aula. Com o corao apertado, andei at o colgio de mos dadas com ela,
era chegada a hora de a pequerrucha
largar a barra da minha saia para conviver socialmente com outras crianas, mas. ela  to pequetita! Ser que vai gostar dos
outros alunos? Ser que vai saber
conversar, interagir com eles? Como ir se comportar diante de novos rostos? Como reagir  ausncia do pai e da me?
Quando comeamos a subir os degraus da escola, ela abriu um sorrisinho gostoso e seus olhos cintilaram com tanta novidade em
volta. No Jardim- de- infncia, apresentei-me
para a tia Anglica, que seria a responsvel pela turma de Maria de Lourdes.
Enquanto conversava com a professora, percebi que minha filha  a desinibio em pessoa. Eu, ali, cheia de aflio e lgrimas
nos olhos, morta de pena de entreg-la
a uma desconhecida pelas prximas quatro horas, e ela j completamente enturmada com os coleguinhas, rindo, brincando e papeando
como se os conhecesse h tempos
e no a segundos. Fiquei orgulhosa, afinal, era um dia importante e ela estava se saindo muito bem.
Despedi-me com uma bitoca. Achei que seria uma despedida de cinema, afinal, era a primeira vez que passaramos tanto tempo longe.
Mas foi uma despedida bem mixuruca.
Depois de dar nela vrios beijos apertados tentei prolongar o abrao o mais que pude, mas.
T bom, me! Chega de beijo! A tia est chamando, tchau.
Num misto de emoo e surpresa, descobri que tenho uma filha muitssimo socivel. Depois de me despedir, no resisti e fiquei
escondidinha atrs de umas rvores,
espiando sua adaptao, seu comportamento, vendo se ela choraria com saudade de casa. muitas crianas abriram o berreiro, mas
no Maria de Lourdes. Parecia uma
mocinha, muito educada, quietinha, independente e, fofura das fofuras, at consolou alguns colegas chores.
Desenvolta, natural, carismtica. em pouco tempo a turma inteira estava ao seu redor. E eu, do meu canto escondido, assistia a
tudo em silncio, babando, cheia
de orgulho, hipnotizada por aquela menininha simptica e encantadora, a minha filha.
Ela no estava chorando, mas eu.
4 ANOS.
na ponta dos ps.
Sempre achei bal a coisa mais linda do mundo. Meu sonho era ser bailarina, mas as professoras diziam que eu no tinha uma
linha de perna bonita. Meu alongamento
tambm no era dos melhores e, nas apresentaes de fim de ano, s me escalavam para ficar escondida na ltima fila. Gostava
tanto de bailarinas que vestia minhas
bonecas como se elas fizessem parte do corpo de baile do Municipal.
Cresci e vi com meus olhos o que at a minha me vivia me alertando: eu no tinha o menor jeito para o bal. Parti rumo ao jazz,
depois me enveredei pelas danas
modernas e contemporneas, aprendi sapateado e h um ano fao dana de salo, duas vezes por semana, com o Armando, o oposto do
p de valsa. E pior, alm de o homem
massacrar meus joanetes, ele me mata desafinando nos meus ouvidos. Para ele, danar  cantar, cantar  danar.
Por sonhar desde sempre com a carreira de bailarina, no economizei um centavo sequer para comprar os apetrechos para as aulas
de Maria de Lourdes, que comeam hoje.
Estou absurdamente feliz por poder realizar um sonho com a minha filha. Dizem que  errado pensar assim e tudo o mais, quando
minha analista souber disso vai me
matar. Mas no estou nem a. No pode ser to ruim uma me querer que os filhos sigam os passos que ela no conseguiu dar, por
incompetncia ou pelas armadilhas
do destino.
Maria de Lourdes apareceu na porta do quarto, pronta para a aula. Parecia uma princesa, um anjo cado do cu, uma herona de
histria em quadrinhos, uma protagonista
de pea da Broadway. Linda, linda, linda.
As sapatilhas machucam, a meia esquenta, a roupa me aperta e eu no quero essa rede no meu cabelo. Quero tirar tudo.
Uuups! Estava meio irritada a Maria de Lourdes. E me disse isso do seu modo, com uma tromba imensa, as mos na cintura, batendo a
bundinha na parede, sem sequer pensar
na dor que aquelas palavras podiam me causar.
Percebi que teria problemas. Contornei a situao contando que, quando eu tinha sua idade, tambm usava roupas de bal, mas me
sentia bonita e feliz com elas. Argumentos
idiotas, completamente idiotas. Mas pelo menos convenci a dona Encrenquinha a no tirar a indumentria.
Entramos no carro, botei um CD animado, contei piadas, mas nada. Nada arrancava um sorriso daquela criana. Maria de Lourdes fez
questo de me mostrar durante o
percurso at a academia que era a pessoa com menos de um metro mais emburrada do mundo.
Tudo bem, eu devia esperar isso dela. Meses atrs, seus padrinhos levaram-na a uma loja para que ela escolhesse um presente.
perguntaram o que ela preferia, uma
roupa de Branca de Neve, uma da Pequena Sereia ou uma da Cinderela. Soube que ela respondeu aos urros, com uma alegria
infindvel:
Super Homem! Eu quero a do Super Homem!
Quando nossos cumpadres chegaram com aquela verso an de super heri, conformei-me. Vi que no era daquela vez que veria minha
mocinha vestida como mocinha. Logo
eu, que sempre quis ter menina para brincar de boneca de novo, para deixar a criana emperiquetada. Tambm sei que isso  errado,
mas dou de ombros. Depois, juro,
tento resolver na anlise.
A verdade  que, sem querer bancar a me babona, minha filhota ficou uma graa de super heri. Pena que a fantasia  um martrio
pra quem usa, super em todos os
sentidos: superquente, superpesada, superincmoda, d trabalho pra botar, para tirar. Mas ela adorou, passou a se apresentar
para todos como Super Homem.
Foi duro pra uma me perua e bailarina frustrada como eu, frustrada! Frustrada, sim! Eu assumo! ver o desnimo no semblante da
minha filha com a roupinha de bal.
Ela era infinitamente mais feliz nos tempos de super heri.
Mas no tem nada de mal querer que ela conhea as maravilhas da dana para que tire suas prprias concluses, tem? No vou
deixar que uma implicncia boba com a
roupa tire dos palcos uma Ana Botafogo da vida, Ah, vai que a Maria de Lourdes vira uma Ana Botafogo! O que  que tem eu sonhar
com isso? Nunca se sabe, nada  impossvel!
Chegamos  academia. Como o bico permanecia intacto, tentei mais uma vez:
Voc est to linda! V fazer sua aula que a mame fica aqui esperando.
engoli a frase que gostaria de ter dito em seguida, que era: mame vai ser a me mais feliz do mundo se voc gostar da aula.
mame ama bal! Se tivesse dito, deveria
tomar vergonha na cara e emendar: Mame  pssima me! Pssima me!
Ter esse tipo de pensamento  mais forte que eu. Por pouco tambm no gritei antes que ela entrasse na sala: Se voc gostar da
aula, mame deixa voc tomar milkshake
antes do jantar, finjo que nem  comigo! Ainda bem que no falei, pois me culparia at o fim dos meus dias.
Pela janelinha de vidro, espiei de soslaio, para no deix-la encabulada. Entre plis, develops e grand- carts , sua
fisionomia permanecia dura, intacta, a testa
franzida. A professora pedia graa, leveza nos movimentos, mas sua falta de motivao e a total ausncia de boa vontade no
colaboravam nada. No meio de meninas
magricelas que levavam a aula a srio, minha filha parrudinha parecia um hipoptamo bbado numa vidraaria, era a verso
feminina e pequena do Frankenstein aprendendo
bal. Seus gestos, seus movimentos, seus chutes, tudo era muito duro, muito sem jeito.
Saiu da aula marchando, mais emburrada do que quando entrou, arrancando dos cabelos a rede, os grampos, o gel e todo o coque
super elaborado que levei horas preparando.
Tudo bem, tudo bem. No vai ser difcil me acostumar com a idia de que ela odeia bal. Sonho muitas outras coisas pra minha
filha.
Aula chata, professora chata, todas as meninas chatas. Bal  chato resumiu seus sentimentos sobre danar nas pontas dos ps.
Est bem, no sonho mais. A partir de agora vou torcer. Torcer para que ela seja uma grande mdica ou uma excelente
violoncelista, acho lindo violoncelo. O problema
 o dinheiro. msicos neste pas, infelizmente, ganham uma mixaria.
Mas nada importa mais na minha vida do que ver um sorrisinho de volta ao rosto mais lindo do mundo. Por isso, matriculei-a na
aula de jud que acontecia na sala
ao lado e fisgou sua ateno de forma impressionante. Minha baixinha parecia hipnotizada ao acompanhar os golpes e os
ensinamentos de mestre Shing  turma. Agora,
alm de nadar como um peixinho, minha maravilhosa quer ser uma grande judoca, e vai para as Olimpadas, tenho f.
Ai, ai, ai, eu de novo pensando bobagem! O que quero mesmo  que Maria de Lourdes seja feliz na escolha que fizer para sua vida.
Alm do mais, ela ficou um espetculo
de quimono. Linda, linda, linda.
O pum.
Filhos so uma caixinha de surpresas. Quando Mrio Mrcio tinha dois aninhos, descobri num elevador, que seu pum no era um pum
que as pessoas esperam de um beb.
Pum de criana pode ser barulhento como motor de carro de Frmula 1 e muito, muito fedorento mesmo.
Estava no elevador do prdio do mdico, com ele e Maria de Lourdes a tiracolo e minha barriga de sete meses de gravidez pesada
como um urso. Sim, engravidei de
novo, e esta  a ltima vez. Como freqentava o consultrio do doutor Murilo havia um bom tempo, desde o nascimento de Maria de
Lourdes, eu conhecia o ascensorista,
o porteiro do prdio, o moo da manuteno. todos sempre me deram bom dia e boa tarde. A partir desse dia que narrarei a
seguir, eles continuaram um poo de educao,
mas nunca deixei de ouvir os risinhos que davam pelas minhas costas.
Eram quatro da tarde, eu estava atrasada, Maria de Lourdes chorando porque queria um brinquedo, Mrio Mrcio chorando por chorar
e eu chorando com carrinho, beb
de colo, minha bolsa e bolsa do nenm, tudo me atazanando ao mesmo tempo.
Pois bem, eis que perto do sexto andar, o do mdico era o dcimo segundo, o moleque resolveu soltar um pum. No um, com o
perdo da chula e imperdovel, porm insubstituvel,
palavra, peidinho proporcional ao seu tamanho, mas um daqueles enormes, barulhentos, com cheiro de enxofre. Na mesma hora eu
reagi: Meu filho, que falta de educao!
Com os olhares cada vez mais voltados para mim, fiquei acuada e ruborizei ao perceber que ningum ali acreditara que o pum no
era meu. Para completar, Maria de
Lourdes perguntou, com aquela irritante sinceridade infantil:
Voc soltou um pum, me? Foi voc? R r, mame soltou um pum enorme! E t dizendo que foi o Mrio Mrcio!
Que soltei pum, o qu? Pra com isso, olha o respeito!
Mame soltou pum, mame soltou pum, mame soltou pum, larar, mame soltou pum, larar!
Que larar, Maria de Lourdes? Que musiquinha esdrxula  essa? Cala essa boca! disse, entre os dentes, morta de vergonha.
Cnica, ela ignorou minha bronca e repetiu a tal musiquinha cada vez mais alto, cada vez mais rpido, s para me irritar. Eu
resando para chegar o dcimo segundo
e o elevador devagar como nunca.
O pior constrangimento foi ver todo mundo que saa me lanar aquela olhadinha sem-vergonha, do tipo , madame, no podia
segurar esse? S mais seis andares? Tsc,
tsc, tsc, que vexame, ainda bota a culpa no nenm.
Filhos. como so adorveis!
5 anos.
Hora de dormir.
Hoje o dia foi cansativo. Maria de Lourdes precisa dormir logo, estou com um sono incontrolvel, mal vou conseguir cantar pra
ela. Alis, esse negcio de me virar
cantora depois do nascimento de filho  um terror. Sempre fui a desafinao em pessoa, nunca decorei uma letra de msica, canto
tudo errado e fora de tom, minha
voz  pssima. Cantar, para mim,  um tormento. Mas me  me e precisa cumprir seus deveres.
Sentei na cama e comecei a cantarolar a primeira cantiga de ninar que me veio  cabea: Jurucutu marambaia, tu hoje no venhas
c Porque a Maria de Lourdes diz
que vai te matar Sai, gato preto, de cima do telhado/ Deixa a Lourdinha dormir sossegada.
Com os olhos arregalados, ela me mandava o recado, simples e direto: prepare-se, no vou dormir to cedo. E ainda puxou
conversa:
Me.
Aqui respondi, sonolenta.
Por que  que o cu tem estrelas?
Como assim essa menina me pergunta isso a essa hora? Logo agora que no estou raciocinando!
Hum. . porque.
Preciso fazer algo, preciso fazer algo! O que  que eu fao para ela dormir? O qu? J sei!
Ssshhh! Sshhh! Sshhh! Sshhh! Sshhh! Sshhh! Sshhh! Vamos dormir, Maria de Lourdes, vamos dormir, amanh a gente pensa nas
estrelas. Sshhh! Sshhh! Sshhh! Olha o
boi! Boi, boi, boi Boi da cara preta Pega esta criana que tem medo de careta.
Pois, sim! Minha lindinha no demonstrava nenhum sinal de cansao, de sonolncia. Como continuava a me fitar sem piscar e meu
sono s aumentava, tive uma idia que
poderia acelerar o processo que a levaria a um sono profundo.
Pus uma das mos sobre seus olhinhos e comecei a acompanhar com os dedos o ritmo das cantigas, mantendo cerradas,  fora, suas
pequenas plpebras. Cantei Atirei
o pau no gato e outras msicas non sense, e muitas vezes perversas, do cancioneiro infantil.
A tcnica no funcionou como eu gostaria. A pequerrucha demorou mais de uma hora para cair no sono. Algumas vezes, senti que ela
fazia fora para abrir os olhinhos.
Cruel, fingi que no entendia e deixei meus dedos vencerem de lavada a batalha com as plpebras. Resultado: consegui o que
queria, mant-la de olhos fechadssimos
durante todo o tempo.
Quando ela, enfim, adormeceu, dei um beijo na sua bochecha e fui, feliz, para debaixo do meu edredom dormir o sono justo das
mes. E, melhor parte dessa histria,
tive um sonho timo. Sonhei que eu acordava com a voz idntica  da Maria Bethnia e um repertrio bem mais vasto do que as
quatro ou cinco canes de ninar que
conheo. Tudo decoradinho na minha cabea. Sonho meu! Maria de Lourdes bem merecia que ele se tornasse realidade.
Maria de Lourdes?
Me, por que meu nome  Maria de Lourdes?
Porque mame acha esse nome lindo. O nome mais lindo do mundo.
Mas por que Maria de Lourdes? Voc no se chama ngela? Se eu sou sua filha devia me chamar Maria de ngela.
Ah, que gracinha. Mas no  assim que funciona, querida. O nome  Maria de Lourdes.
Por qu?
Porque sim! O nome  assim, Maria de Lourdes, e ponto final.
Quem disse?
Um monte de gente disse.
A minha amiga de pracinha se chama Maria Luza, a do colgio Maria Eduarda e o meu irmo se chama Mrio Mrcio. Porque
no se chamam Maria de Luza, Maria
de Eduarda e Mrio de Mrcio?
Ai, Maria de Lourdes. porque o nome deles  assim.
E por que o meu nome  Maria de Lourdes?
Caramba! Que criana insistente!
Porque existe uma santa, chamada Maria, que apareceu em Lourdes, uma cidade l longe, na Frana. Por isso vrias meninas tm
esse nome.
Eu sou da Frana?
Claro que no, que bobagem! Voc  do Rio de Janeiro.
Ento posso trocar meu nome para Maria do Rio? Ou, quem sabe, Maria da Praia? Adoro praia.
Maria da Praia? Que nome medonho! Maria de Lourdes  to lindo.
Voc se chama ngela de Lourdes?
No, Maria de Lourdes. Que papo mais chato!
Ento por que eu sou obrigada a me chamar Maria de Lourdes? Eu nem sou santa!
Ah, isso voc no  mesmo!
Posso trocar de nome?
No. Ningum troca de nome.
Ento eu vou pedir para todo mundo me chamar de Malu. Gosto muito mais.
Ai, Maria de Lourdes, que idia boba, seu nome  to forte, to bonito.
Maria de Lourdes, no, mame. Malu.
6 ANOS.
O primeiro amor.
Me, eu estou namorando.
O qu? Como? Quem? Desde quando?
O Guilherme Almeida.
Quem  esse Guilherme Almeida?  da sua sala?
Eu amo o Guilherme Almeida, me. Amo.
Calma, filha, vamos conversar.
Meu Deus, como assim amo? Esta pirralha tem seis anos! Ela s pode amar a mim, ao pai e aos irmos! Tentei agir naturalmente.
E o Thiago Balazartes?
Agora eu no estou mais com o Thiago Balazartes. Decidi ficar s com o Guilherme Almeida.
Vamos por partes, Maria de Lourdes. Vrias perguntas: o que  estar para voc? Antes voc estava com os dois? Minha filha,
aprenda: nunca com dois, sempre
com um s.
Eu gosto mais do Guilherme Almeida.
Espera a! Guilherme Almeida no  o ogro? Aquele menino calado, que vive emburrado, parece de mal com a vida?
Ele no  nada disso, mame. Ele s  intenso.
Calma, nessas horas no se pode mostrar para a criana que voc est absolutamente chocada com o dilogo. E, principalmente, com
as palavras usadas no dilogo.
Quem te disse isso, Maria de Lourdes?
Ningum. Foi a psicloga do colgio que disse isso para ele e para a me dele.
Mas voc vai trocar o Thiago Balazartes, que  uma graa, todo bonito, loirinho, corte de cabelo na ltima moda, pelo ogro?
Eu no ligo para aparncia. Para mim o que importa  o que est dentro da pessoa.
Dorme com essa!
Achei muito engraadinho e instiguei.
E o que est dentro do Guilherme Almeida?
Uma beleza enorme, mame. Eu estou fascinada pelo Guilherme Almeida e, a partir de hoje, s namoro com ele.
Que linda! Quase chorei com o fascinada. Ensinar os filhos a gostar de ler desde pequenos d nisso. Bom demais. No resisti e
perguntei:
E como  esse namoro? Tem beijo?
D! Claro que no! Eu sou tmida.
E como  que vocs namoram, ento?
S eu namoro ele. Ele nem sabe. Ningum sabe. E isso  um segredo nosso, t, me?
Pode deixar. No conto para ningum.
T.
Dito isso, a danada virou-me as costas e foi para o quarto. Antes, eu quis saber, s por saber:
Voc. voc ama a mame?
D! Claro, n, me? Adulto faz cada pergunta.
7 ANOS.
A primeira bicicleta.
Me, me d uma bicicleta?
No.
Por qu?
Porque no  seu aniversrio nem nada.
Eu quero uma bicicleta.
Entendi, querida, mas  um presente grande. a gente te d no Natal, t?
T.
No dia seguinte.
Me, a Gisela aqui do prdio ganhou uma bicicleta ontem. E no era Natal nem nada.
Olha s. que sorte da Gisela.
Um dia e uma noite depois.
A Maria Antnia ganhou uma bicicleta. Est andando na Lagoa todo dia com os pais. Acho que todo mundo no mundo inteiro anda de
bicicleta na Lagoa. Menos eu.
Fiquei com peninha. Peninha nada, meu corao esmigalhou-se, mas.
Querida, j conversamos sobre isso, agora no vai dar. A Malena ainda est com quatro meses, beb  sempre uma despesa danada.
sem contar que se eu der pra voc
agora, seu irmo tambm vai querer. Posso tentar antecipar o presente para o Dia das Crianas, combinado?
Combinado! ela vibrou, alegre e saltita.
Tentar.
T.
Algumas horas depois.
Me, sabia que bicicleta faz bem para a sade?
No acreditei. Menina insistente.
Sabia, filha.
Uma hora se passou e.
Me, sabia que tem bicicleta para alugar na Quinta da Boa Vista, na Lagoa e na praia? Quero te dizer que eu no me importo de
andar de bicicleta alugada.
Filhota, a mame no tem como te dar um presente desses agora. No quero que voc seja uma criana mimada, no insista.
No sou mimada. E no estou insistindo. Eu s quero uma bicicleta.
J entendi, filha. No Dia das Crianas, t?
Arr concordou, antes de ir para o play.
No dia seguinte, chegou do colgio e me deu um beijo.
Oi, me.
Oi, filha.
Vou para o quarto.
T bom, linda.
Tchau.
E mais no disse. Tambm, no precisava. Seus olhos e seu semblante disseram tudo e me convenceram no ato a lhe dar o to
suplicado presente o quanto antes.
 que Maria de Lourdes j estava ficando com cara de bicicleta.
8 ANOS.
Discusso ocular.
Quando soube que seria me, decidi que educaria minha filha da seguinte forma: no repetiria os erros de minha me, apenas seus
acertos. Simples assim. Lembro sem
saudade dos tempos de criana em que j me considerava gente. Ela fazia questo de no me deixar decidir nada. Em pblico,
ento,  tratava-me como se eu fosse uma
criana sem vontade e opinio prpria. No final, eu tinha sempre de acatar suas decises e odiava isso. Cresci tendo a certeza
absoluta de que jamais opinaria pelos
meus filhos, jamais.
Pois bem. As coisas mudam e, infelizmente, devo admitir que me vi fazendo com a minha filha o que mais odiava que fizessem
comigo.
Como Maria de Lourdes estava vendo televiso cada vez mais perto do aparelho, levei-a ao oftalmologista e foi diagnosticada nela
uma pequena miopia. Fomos  tica
escolher um par de culos.
 esse par sim, senhora! culos de tartaruga so chiques, elegantes, clssicos. E esto num timo preo.  este modelo bem
escuro que vamos levar e ponto final.
Mas, me! Voc no pode fazer isso comigo! Esses culos so enormes, pesados e redondos, com eles eu pareo uma coruja de mau
humor. J que EU vou usar culos,
EU devia escolher o modelo, n? E tartaruga  u! U!
Menina abusada. Puxou o pai. Tartaruga  lindo.
Eu no acho.
Mas .
Para mim  coisa de gente velha! Esses culos so imensos, pareo uma abelha com eles. Eu queria um modelo colorido, leve,
divertido, que tenha a ver com a minha
idade e que no ocupe mais da metade do meu rosto.
Deixe de dizer besteira. culos so culos, apenas duas lentes que enfeitam a gente e levam as pessoas em volta a nos chamarem
de quatro olhos.
Eu no quero ser chamada de quatro olhos!
Pois v se preparando.
Vamos pesquisar na Internet um modelo legal, me...
Que Internet, Maria de Lourdes? Voc acha que eu no tenho mais o que fazer?
No quero tartaruga!  feio e brega.
No quero tartaruga!  feio e brega.
No diga besteira, tartaruga  bonito e est sempre na moda. Agora veja o senhor - dirigi-me ao vendedor que assistia em
silncio ao pequeno quebra-pau ocular.
eu dou tudo para esta criana. Amor, carinho, compreenso, educao, comida, ajudo nos estudos. e o que  que eu levo em
troca? Desaforos! Maus- tratos! Rispidez!
Agora me diz, onde foi que eu errei?
No repara no, moo, ela  chegada num drama.
Olha o respeito, Maria de Lourdes! Que gnio, garota! Que gnio ruim voc tem! No fala assim com a sua me!
Eu sei, eu sei, soei como a pessoa mais chata do mundo, mas justifico-me. Minha Tenso Pr- Menstrual me deixa louca, algumas
vezes triste, outras com raiva, mas
chata eu sempre fico. Muito chata. Pobre Maria de Lourdes!
Eu no quero o de tartaruga!
Ah, quer sim! Vamos levar.
No quero.
Quer.
No quero.
Quer.
No vou usar.
Dane-sE! exclamei, para logo depois tapar a boca num sinal de auto repreenso. Como  que eu fui falar assim com a minha
filha? Sou uma grossa mesmo. Mas
continuei no mesmo ritmo, como se nada tivesse acontecido. No quero nem saber se voc vai usar ou no, Maria de Lourdes. Pode
pagar parcelado, moo?
Dois meses depois, eu me vi obrigada a pagar outra armao para a teimosa, j que a miopia aumentara quase um grau, a danada
cumpriu a promessa de no usar os culos).
Uma roxa, de design arrojado, italiano, sete vezes mais cara do que a outra, que, verdade seja dita, era a pior imitao de
tartaruga do mundo. Fez o maior sucesso
na escola, ficou toda feliz a minha pequena.
Pequena que faz drama de adulto e j sabe impor sua vontade direitinho. No sei a quem essa menina puxou.
Leguminosas.
Cenoura, beterraba, alface, agrio, rcula e tomate. Coma tudo, Maria de Lourdes!
No quero.
Quer sim. E vai raspar o prato.
 ruim, hein? S raspo se for bife com batata frita.
Bife com fritas s depois da salada.
No gosto de salada. Quem come mato  vaca e eu sou criana!
Mas legume e verduras deixam a gente forte.
O papai no come nada disso e  super-forte.
O papai no  super-forte, o papai  super-gordo, praticamente um pufe. E  adulto, cheio de defeitos, por isso ele come to
mau.
Ento eu quero ser uma criana cheia de defeitos.
Muito engraadinha, mas enquanto voc e seus irmos forem crianas, eu cuido da alimentao de vocs.
Mas alface e rcula, para mim, so plantas. E quem gosta de planta  jardineiro e a vov Dalva. Eu no como planta, como
comida! Comida!
Ento aprenda a gostar de "planta". Quando voc crescer, se quiser, pode mudar seus hbitos alimentares, mas enquanto morar
a comigo vai ter de me obedecer.
Que saco! Quanto tempo falta para eu virar adulta?
Muito tempo, Maria de Lourdes. muito tempo.
9 ANOS.
Mes no danam!
Levei Maria de Lourdes ao aniversrio de uma amiguinha da natao. A comemorao, temtica, barulhenta e colorida como todas as
festas infantis atualmente, aconteceu
no playground, decorando com motivos de Barbie. No salo de festas ficava a pista. Sim, meninas de nove anos danam. Como ainda
ignoram as meninas, meninos dessa
idade preferem jogar futebol, correr e estar com os amigos.  bom, assim elas aprendem desde cedo que eles detestam danar,
trocam tudo por futebol ou qualquer esporte
e acham a companhia dos amigos sempre muito melhor que a nossa.
Enquanto a pista enchia de gurias rebolativas e muito assanhadinhas para o meu gosto, aquele papo-me da mesa de mes s me
irritava. Entre cachorros-quentes e pipocas,
uma tonelada de assuntos sem graa, debatidos com uma seriedade irritante. Mensalidade do colgio para c, mensalidade da
natao pra l, troca de cores do uniforme,
oh! o peso da mochila, jogos de computador, o novo pssimo professor da matemtica, a prxima reunio de pais, o engarrafamento
na porta do colgio na hora da sada.
De repente olhei para a pista de dana e vi minha pequerrucha, de longe a mais linda da festa, danando. To cheia de ritmo, to
cheia de atitude. fiquei orgulhosa.
Nem parecia a menina dura e desengonada que um dia eu quis que fosse bailarina. Danava com vontade, com o corpo todo. s
vezes se entregava  msica de maneira
tal que at fechava os olhinhos e balanava mais os braos. Mas logo reparava que era mico e parava o show. Achei a cena um
charme e no hesitei em levantar e deixar
aquelas mes chatas e modorrentas de lado. Precisava aproveitar a ocasio e aquela era nica. Decidi danar com a minha filha,
interagir com ela e as amiguinhas,
mostrar para ela como sou bacana e quantos momentos lindos e danantes podemos passar juntas daqui pra frente.
Em questo de segundos, mostraria para minha filha que sua desenvoltura na pista era hereditria, ela puxara a mim, A passos
largos e, claro, cadenciados, aproximei-me
dela e das cinco amigas que danavam em crculo. Deslizando no salo do play, sorri para ela. Embora olhasse na minha direo,
maria de Lourdes permaneceu sria
e emburrada, no deve ter visto meu sorriso, a luminosidade era pouca. Requebrei meus quadris. Ela bateu o p direito no cho
com fora, repetidas vezes. Eu pisquei
para ela, ela olhou para o teto. Eu espremi os olhos, tal qual uma top model fotografando. Ela franziu o rosto inteiro e me
encarou como quem encararia um extra terrestre.
Queria me dizer alguma coisa.
Levantei os braos bem para cima e comecei a acompanhar a batida da msica com palmas, poses e gritinhos. Maria de Lourdes levou
as palmas de suas mos ao rosto,
aos cabelos,  cintura. E, em vez de gritos, ouvi soluos. Vai ver ela queria chorar de emoo. Afinal, era um momento nico,
no tinha nenhum adulto na pista, s
eu. Ela devia estar radiante com o gingado e o suingue da me. Mas eu tinha a impresso de que quanto mais eu me aproximava,
mais ela olhava para os lados e tentava
fingir que eu era invisvel.
Com uma leve bundada na amiguinha da direita e uma bundada mais forte na Alice, amiguinha da esquerda que nunca fui muito com a
cara, marquei minha entrada na roda
e comecei a mexer, a contar, a fechar os olhos, a danar com abandono, a reproduzir os passos de Jonh Travolta em Os embalos de
sbado  noite. Senti por dentro
que estava arrasando. S dava eu na pista.
Que delcia estar aqui com voc, filha! H sculos eu no dano! disse balanando os cabelos de um lado para o outro. Eu era
a animao em forma de me gente
boa.
D para perceber. Todo mundo em volta percebeu  disse ela, emburrada, com cara de poucos amigos.
Pois estou me divertindo  bea.
Est pagando mico, isso sim. Mico, no, gorila. Vaza me. Vaza agora se no quiser me matar de vergonha, est todo mundo
olhando, apontando e rindo. Vaza, vaza!
Eu hein! Era s o que me faltava. Vim aqui danar com voc, toda feliz, e voc quer me expulsar da sua rodinha dance? Nem
pensar. Upaaaa! Adoro essa msica.
Uepa! Me, sai daquiiii, por favooooor! E pra de mexer os braos para trs e para frente como se quisesse voar! Ou nadar,
sei l!
Deixa de ser boba, Maria de Lourdes, estou s danando.
No parece. Neste exato momento, por exemplo, parece que voc est querendo imitar uma gara com priso de ventre.
Nossa! Como ser uma gara com priso de ventre? Deixa para l. O fato  que ela quase no abria a boca para falar. As palavras
meio choradas, meio ordenadas, meio
murmuradas, saam por entre os dentes. Os olhos, que pararam de piscar havia um tempo, mal olhavam para mim. S olhavam em
volta.
Que sair, o que? No saio. Com essa msica d para fazer meu passarinho preferido, presta ateno, Maria de Lourdes.
No, me, passarinho, no! Eu te imploro, eu suplico. Fao tudo o que voc me pedir, mas passarinho, no!
Nesse momento, tomei abuso da Maria de Lourdes. V se pode! Querer mandar em mim, assim, s porque acha que eu estou pagando
mico. No estou nem a. Carreguei essa
metidinha nove meses na barriga e  isso que eu ganho em troca? No mesmo! Resolvi voltar a ser criana, afinal, tudo em volta
contribua para isso, e fiz, com muito
gosto, exatamente o contrrio do que a pirralha me pedira.
Cinco, seis. e cinco, e seis, e sete, e oito. Brao esquerdo, brao direito, perna, chute, ombro. Cabea, cabea, rebola at
embaixo, chute de novo. Uhuuu! Lembro
de tudo! Tinha sua idade quando rolava esse passarinho, Maria de Lourdes! De novo, brao, brao, perna, chute, ombro. Parou,
cabea, cabea. Cabe.
Me, minhas amigas esto perguntando se voc sempre se comporta dessa maneira ridcula. Agora entendi por que o Mam quase se
mata para convencer o papai a ir
com ele nas festas.
O Mrio Mrcio e a Malena gostam mais do seu pai, isso  fato. Voc no, Voc me ama incondicionalmente desde beb. Ns temos
uma conexo especial desde que voc
nasceu.
Conexo sacal, voc quer dizer!
Primognito  sempre superprotegido, filha.
Supersofredor, isso sim.
Nossa, como voc gosta de reclamar, Maria de Lourdes!
As minhas amigas esto te achando uma bbada maluca e sem noo! J falei que voc no bebe lcool, s refrigerante, mais
ningum acredita!
, filha, assim voc magoa a mame. Eu no bebo refrigerante,  cafona e d celulite.
Cafona  voc comprar roupa de gente da minha idade. Cala baixa, me? Onde voc estava com a cabea?
Eu fico muito bem de cala baixa, disfara meus quadris, ta?
Em que espelho?
No meu! Maria de Lourdes, no meu! subi o tom de voz algumas notas. Baixei novamente. Voc no vai conseguir me irritar e
me expulsar da pista. Eu estou felicssima
hoje, daqui no saio mesmo.
Ah ? Ento, j que vai continuar fazendo isso que chama de dana, podia, pelo menos, tirar a pochete.
Que pochete, Maria de Lourdes? Enlouqueceu? Eu odeio pochete, quase mato o seu pai quando ele resolve usar.
Ai, me! O que eu quis dizer foi: encolhe a barriga! Voc sabe que a sua barriga est parecendo uma pochete, no sabe?
e daquelas bem lotadas.
Se a pirralha no fosse minha filha eu apelaria para um linguajar desclassificado e a chamaria de vaca com todas as minhas
foras. Mas me de vaca, vaca . Portanto,
achei melhor continuar minha dana, era tudo o que eu podia fazer para irrit-la mais do que ela estava me irritando.
Eu tenho trs filhos, Maria de Lourdes! No d para ter a barriga lisa depois de trs filhos.
Fala srio, me! Claro que d, voc que no soube manter seu corpo.
O qu! Ouvir isso de uma nanica de nove anos  quase a morte, mas mantive meu salto.
No pira, caipira! Filhos acabam com o corpo da gente. Mas um dia voc vai saber.
No pira, caipira? Que  que  isso? Ai, me, que vergonha! Em que ano voc vive? Que expresses so essas que voc usa? De
onde voc desenterra isso? O que
minhas amigas vo pensar?
Ah, Maria de Lourdes, se liga! No estou nem a para voc e para suas amigas. Quero  danar e ser feliz, voc est me
atraPalhando.
A festa  para gente da minha idade, no para velho.
Velho? E onde  que voc est vendo velho aqui? Outra coisa, senhorita, no existe gente da sua idade. O que existe  criana
da sua idade. Na sua idade as pessoas
parecem gente, se acham gente, agem como gente, mas no passam de pirralhas.
Pirralhas? Onde  que voc est vendo pirralhas aqui? Pirralhos tm cinco anos. Eu tenho nove!
Ento, ta, pirralha de nove anos. Agora vamos calar a boca e ouvir a msica? Estou a fim de me soltar, de mexer o esqueleto!
seu pai no me leva para danar nunca.
E o que  que eu tenho a ver com isso? Amanh no colgio vai todo mundo comentar o mico que a me da Malu pagou na festa.
E voc liga para o que as pessoas comentam? Fala srio, Maria de Lourdes! Tenha personalidade. Voc tinha de se orgulhar por
ter uma me moderna, empolgada, animada,
divertida, cheia de ginga. Eu sou um espetculo, isso sim. E sou a melhor me do mundo! Sou uma me do balacobaco!
Do balacobaco foi horrvel, eu sei. Isso  do tempo do ona. Ops! Do tempo da minha av, digamos assim. O fato  que
Maria de Lourdes arrumou uma forma de se afastar
de mim aos poucos e, quando dei por mim, estava danando sozinha na pista. Tudo bem, pelo menos estava danando. E, como no
tinha nenhuma pirralha sem sal para
me recriminar, pude me soltar, deslizar, sapatear, rodopiar, flutuar. Feliz da vida. Afinal, foi uma tarde nica, dancei pela
primeira vez com a minha filhota e
ainda descobri que ela  cheia de suingue. Pena que a boboca morre de vergonha de danar comigo. Mas isso passa.
Um dia tenho certeza, ela vai gostar de sair para balanar o corpo com a me. E eu vou amar quando isso acontecer.
10 ANOS.
Hoje  dia de festa.
Se voc  me, prepare-se. Um belo dia sua filha vai olhar no fundo dos seus olhos, com o olhar mais cndido do mundo e dir,
com a fisionomia inalterada, plcida:
Me, tenho uma festa para ir hoje.
Festa. Festa! No  um encontro entre amigos num play ou em um buf infantil, no! Em boate de adulto! Horrio de adulto! Saem
tarde de casa, chegam mais tarde ainda!
O sono da gente que se dane! Pai e me, a partir de uma certa idade, vivem para pegar os filhos. No cinema, na escola, na praia,
na natao, na capoeira, na casa
de algum, nas festas. E no pode ficar esperando na porta dos lugares, tem esse detalhe.  mico.
Rega-bofe anunciado, comea o dilema da roupa. Sim, porque quando elas fazem uns oito anos decidem que repetir roupa  pecado
mortal. Em festa, ento,  o fim.
A agenda, que antes servia como dirio, passa a ser finalmente utilizado como agenda e lota de compromissos com uma velocidade impressionante.
So pelo menos trs festas por semana. Trs!
O pior  que, alm das roupas, tem o rio de dinheiro que elas nos fazem gastar em coisas utilssimas, como esmaltes coloridos,
pulseiras diferentonas, anis modernos,
elsticos para cabelo de ltima gerao, gloss, blush, sombras. e tudo  sempre no plural. Sempre. Ah, sim. Meninas de 10 anos
j usam esmaltes, pulseiras, anis
e maquiagem. Um espanto. Meninos do um trabalho, meninas do trabalho triplicado!
Por essas e outras que uma amiga minha diz que aquela rede de proteo que botamos nas janelas no  para crianas no carem.
 para as mes no se jogarem l embaixo.
Minha filha atropelou meus pensamentos:
Voc pode me buscar s duas ou quer que eu durma na Alice?
Nessas horas, o segredo  manter a tranqilidade, respirar, contar um, dois, trs, quatro, cinco.
Eu estou muito introspectiva, por isso no deve dar para reparar que eu estou rolando de rir por dentro. Sim, porque isso que
voc me contou foi uma piada, no
foi? Como assim, duas? Duas da manh?
No, da tarde. debochou a danada.
Maria de Lourdes, no ironize, no suporto isso. Duas horas da manh? Voc  uma criana e crianas no DORMEM s duas da manh.
No em dia de festa. Ento eu durmo na casa da Alice, beleza disse, virando-me as costas e dando a conversa por encerrada.
Ei, ei, ei, mocinha! Est pensando que  assim? Que voc decide o que bem quer fazer da sua vida?
Arr.
Maria de Lourdes, voc anda muito malcriada, sabia? No meu tempo, se eu falasse assim com a minha me levava um tabefe e ainda
tinha minha boca lavada com sabo.
Palavro e malcriao no entravam l em casa.
no seu tempo, me. Hoje  meu tempo. Que saco esse negcio de tempo! Eu no sou do seu tempo, assim como voc no  do tempo
da vov e a vov no  do tempo da
av dela. Sacou? D um tempo, me.
Ai Maria de Lourdes, como voc me irrita! J para o quarto.
Como assim?
Sou sua me, enquanto eu pagar suas contas voc faz o que eu mando. No tem festa coisa nenhuma.
Qu?
Isso mesmo que voc ouviu!
Quando  que eu vou crescer para poder fazer da minha vida o que eu bem entender? Eu quero morar sozinha!
Voc no consegue ficar sozinha por dois segundos, imagina morar sozinha, no diga sandices.
Ah, ? Pois sabe o que eu vou fazer quando eu for adulta? Vou comer s feijo, arroz, bife e batata frita. Todo dia! E vou me
entupir de biscoito antes de qualquer
refeio sempre que tiver vontade. E vou botar o p em cima do sof e no vou ter ningum para dar satisfa.
Arr. Acabou o show? J para o quarto.
Ah, me! Deixa eu dormir na casa da Alice!
No.
Por qu?
No gosto dela.
Por qu?
No vou com a cara dela.
Por qu?
Sexto sentido de me. E isso a gente no questiona, a gente aceita. No gosto dela e ponto.
Ah, ento est explicado. No gosta porque no gosta. Quando eu digo que no gosto de jil porque no gosto voc briga comigo.
Vai entender os adultos!
Chega de deboche, menina! Passou dos limites.
No estou acreditando que voc no vai me deixar ir  festa. Vou ligar para o meu pai agora.
No vai, no. J para o quarto, Maria de Lourdes!
quantas vezes preciso dizer? Eu no gosto do meu nome! Daqui pra frente eu quero que respeitem a minha vontade nesta casa e
passem a me chamar de Malu! Todo mundo
me chama de Malu, menos voc. Parece implicncia.
Mas Maria de Lourdes  um nome to lindo.
Virou as costas e saiu falando sozinha.
Festa. pois sim! No vai mesmo. Imagina se ela beija algum, no sei se estou preparada para ouvir da minha filha que ela
beijou de lngua.
Ui! Que careta, meu Deus, que careta! No posso nunca contar isso para ningum.
Cabelo em p.
Outro dia li numa revista que as mulheres no saem de casa sem passar pelo menos 21 minutos se arrumando. Esse tempo refere a
um programa bsico, como ir ao shopping.
Quando se trata de uma noitada em um bar, a mulherada perde 54 minutos se arrumando. Maria de Lourdes, que nem  mulher ainda
embora se ache uma gata, no mnimo,
uma hora em frente ao espelho se ajeitando. E isso em dia de tarde no shopping. Em dia de festa, melhor pedir para a lerdeza em
pessoa comear a se arrumar umas
quatro horas antes de sair.
O cabelo  o grande culpado. O cabelo  a vida para Maria de Lourdes, um assunto importantssimo, cabelo  tudo para ela. Para
chegar perto das madeixas dos seus
sonhos, ela gasta interminveis minutos alisando, esticando, puxando, escovando e secando os benditos fios. Cuida deles com um
carinho que s vendo. Mas nunca est
satisfeita, claro. Vive reclamando da textura. Do tipo, da cor, do comprimento, dos cachos.
Vamos embora, Maria de Lourdes! Voc est h quarenta e cinco minutos fazendo esse rabo-de-cavalo! No  possvel! A gente s
vai ao zoolgico e me disseram que
os bichos no so muito de comentar e prestar ateno no penteado dos visitantes.
D! chiou ela, mostrando que no estava para brincadeiras.  que no estou conseguindo abaixar um fio.
Que fio?
Este aqui, no est vendo?
No, ningum v, s voc.
Mas est aqui, todo eriado.
Onde?
Aqui! No est vendo?  cega?
Engoli a mal criao para no criar clima ruim e fiz e refiz a porcaria do rabo-de-cavalo da Madame Mau Humor umas sete vezes e
o diacho do fio que ela via continuava
em p. Chamei o Armando, que criou dezessete verses desastradas para o penteado e o tal fio, que era absolutamente invisvel
para toda a famlia, vale frisar, continuava
irritando a moa - e a casa inteira.
A pequena Malena quis ajudar, mas foi logo vetada, Mrio Mrcio bem que tentou dar uma mozinha, mas acabou levando uma bronca
por ter deixado eriados outros dois.
dois! fios, vizinhos ao eriado original o que  uma tragdia no universo paralelo onde vive a Maria de Lourdes.
Ser que ningum nesta casa consegue fazer um rabo-de-cavalo decente? reclamava ela, doida para puxar briga.
Vamos botar gel sugeri.
Claro que no! No se atreva! Vai ressecar o meu cabelo todo!
Laqu?
Nem pensar! Deixa o cabelo duro e armado. E eu s quero abaixar um fio! gritou com toda fora.
gua?
gua? Louca! gua seca e fica dez vezes pior do que antes, n me?
J sei!
No, me! Cuspe, no, n?
Tarde demais. J tinha dado uma lambida de respeito no polegar e em dois tempos passei no seu cabelo. Para fixar bem, tasquei
mais uma lambida. A fresquinha chiou
e se esgoelou o quanto pde, mas minha saliva materna cumpriu  risca sua funo adesiva e baixou os, oh, meu Deus! trs fios
rebeldes. Minha saliva  to potente
que deu at mais brilho no cabelo da menina.
Menina ingrata:
Eca! Que nojo! Como voc teve coragem de fazer isso? Nojo! Nojo! resmungou ela com o rosto todo franzido sem saber onde pr
as mos, apontando para a cabea
como se 370 minhocas gosmentas estivessem passeando por ela. Cena engraadrrima, mas me contive.
Nojo de qu? Da minha saliva? Deixe de ser ridcula! Limpei um monte de coc seu e  isso que recebo em troca?
No venha de conversinha, no! Nada justifica voc cuspir no meu cabelo. Voc cuspiu no meu cabelo! Isso devia ser proibido.
Mas voc vai ser no zoolgico que a me lambe as crias.  s encarar a cusparada como uma lambida, boba. Assim voc sai de
casa entendendo como funciona o reino
animal debochei. Podemos ir agora?
Claro que no, no saio sem tomar banho. Voc me deixou horrorosa com essa lambida. Agora meu cabelo ficou com cara de sujo,
imundo! Parece que derramaram um litro
de leo na minha raiz.
Deixe de ser exagerada, menina! Se quiser, lava de novo o cabelo que essa histria me deixou de cabelo em p! soltei meu
lado piadista.
Nossa, como voc  engraada disse ela, serissima.
E voc  emburrada. V para o chuveiro logo e no demore, por favor!
Depois do banho, ela me puxou num canto:
No conta do cuspe para ningum?
Segredo nosso.
Promete?
Est prometido.
O silncio selou nosso trato. Mas logo ela me lanou um olhar sapeca e me surpreendeu:
Posso rir agora?
Pode, sua maleta.
E voc jura que no conta para ningum que eu ri do dia em que voc tascou cuspe no meu cabelo?
Juro.
Ela estorou numa risada pra l de saborosa. No resisti e me deixei contagiar por seu sorriso lindo. E ficamos ali, no quarto,
sozinhas por bons e longos minutos,
fazendo uma coisa saudvel e recomendvel: rolando de rir uma da cara da outra. Antes de sair, prometemos esquecer o episdio da
lambida. Alis, que Maria de Lourdes
nunca saiba minha opinio sobre isso: nojo! Nojo! Nojo!
Mantenha-se afastada.
Maria de Lourdes pensa que eu no noto, mas est chegando naquela fase insuportvel em que o ideal para ela seria que eu no
existisse. Ou fosse invisvel. Ideal
mesmo seria que, alm de invisvel, e muda, claro, eu a alimentasse, lavasse suas roupas, desse sua mesada e me recolhesse num
quarto escuro o restante do tempo.
Como sei isso? Fomos ao shopping outro dia. Foi ridculo.
Vamos logo, tenho um cineminha marcado daqui a pouco e no quero perder a hora avisei.
O projeto de gente saiu do carro, botou o walkman nos ouvidos e voou para dentro do shopping. Andou a lguas de distncia de mim.
Por mais que eu gritasse, e como
eu gritei! Maria de Lourdes! Maria de Lourdes! Vem ver essa vitrine! a aprendiz de arrogante no se virava.
Peguei-a pelo brao:
Posso saber por que voc est nove metros  minha frente?
Gente, essa mulher  louca! Louca! Nunca vi na vida reagiu, sonsa.
Se voc quer platia voc vai ter. e ela no vai gostar de voc.
Ela fez cara de tdio. Nem se abalou com a ameaa.
Sabe me deixar com raiva!
Posso saber por que voc me ignorou quando eu te chamei?
Voc me chamou? Daquele seu jeito discreto, berrando o meu nome? No acredito! Algum ouviu?
Todo mundo menos voc.
Ai, me, que mico!
Pensa que eu no percebi que voc queria que eu fosse invisvel?
Que bom que voc percebeu! Se a gente parar de conversar agora ningum vai notar que somos me e filha, vai parecer que voc
veio me pedir alguma informao.
Que audcia! Que petulncia! Deu vontade de dar umas palmadas nela ali mesmo.
Maria de Lourdes! Ns viemos ao shopping juntas! E se voc for ficar de frescura eu vou.
Me, shopping com me  mico, entendeu? Maneiro  vir com a galera. Me deixa e busca. S. Voc no entende porque no seu
tempo aposto que nem tinha shopping.
Voc quer ficar sem vir ao shopping por um ano?
Claro que no, me! Fala srio.
Botou o walkman e saiu andando. Nove metros  minha frente.
11 ANOS.
Menstruao  lindo.
Outro dia Maria de Lourdes veio com um papo de que no v a hora de ficar menstruada. Tem coisa mais descabida?
Minha filha, menstruao  a coisa mais chata do mundo!
O papai diz que muito mais chato  fazer a barba todo santo dia.
Ele diz isso porque no menstrua, no tem clica, no gasta rios de dinheiro com absorventes, anticoncepcional e remdio para
clica, no fica na tpm, no tem
uma dor de cabea infernal no primeiro dia de menstruao.
Pois eu acho menstruao lindo.
Sangrar uma vez por ms  lindo? Em que planeta?
Ah, me. Eu sei que tudo vai mudar na minha vida depois que eu menstruar. Vou ficar mais mulher.
E vai deixar de ir  praia, se tiver clica, vai deixar de ir ao cinema se o fluxo estiver muito forte. no diga sandices,
maria de Lourdes! O que muda com a
menstruao  o humor, o bem- estar. Vai tudo pro brejo. No dou duas menstruaes para voc me dar razo. Mas a vai ser
tarde. Uma vez menstruada, menstruada para sempre!
No  para sempre, eu sei, mas o assunto estava me deixando irritada e eu precisava exagerar um pouco.
Li numa entrevista que aquela atriz novinha da novela no menstrua. Parece que tem um tratamento que.
E eu l quero saber de artista? Artista  tudo diferente, artista  tudo maluco.
Mas a coordenadora da quarta srie tambm no menstrua.
Qu?
Nem a professora de Cincias.
A professora de Cincias no menstrua? Como  que voc sabe que a professora de Cincias no menstrua, Maria de Lourdes? Voc
no sai perguntando no colgio, de
professora em professora, quem menstrua e quem no menstrua, no ? No me diga isso, que vergonha!
Claro que no, me! Ih, no se pode falar nada com voc. na minha escola todo mundo conversa tudo com todo mundo, o oposto
daqui de casa.
Assunto sem nexo eu no converso mesmo.
Bem que o papai falou.
Falou o qu?
Pra eu no puxar esse assunto com voc.
Por qu?
Ele me avisou que voc ia ligar a minha menstruao com o seu envelhecimento. E rugas, segundo o papai, deixam qualquer mulher
deprimida, irritada, ensandecida
e estressada. E estava certo.
Seu pai no est certo! Seu pai est erradssimo. Seu pai  errado! Eu no estou nada irritada. Nem velha. Nem me sentindo
velha. Muito menos enrugada, enrugada
 a me dele! Seu pai no sabe de nada e ainda se acha muito engraado, coitado. Ele  como todo homem, minha filha. S serve
pra trocar lmpada, desentupir privadas,
abrir copos de mate e vidros de azeitona. Maria de Lourdes! Maria de Lourdes! Olha a falta de educao, Maria de Lourdes, volte
aqui j!
Foi embora e me deixou falando sozinha esse projeto de gente.
Mas fez bem.
Eu mereci.
Boletim.
Oi, me, beleza? Toma meu boletim. Beijo, estou indo para o quarto.
Ei, que pressa  essa de ir l para dentro? No mesmo, quero olhar com calma suas notas, coment-las.
Mas  que estou apertada para fazer xixi.
Segura a vontade s um pouquinho, querida. Vejamos, vejamos. 6 em Portugus, Maria de Lourdes? 6? Abaixo da mdia?
A turma toda tirou nota baixa em Portugus.
Eu no tenho nada a ver com a turma toda, tenho a ver com voc. Por que no pediu ajuda a mim ou ao seu pai? Ns adoramos a
lngua portuguesa. Trabalhamos com
ela.
? fez ela, rosto todo franzido, realmente indignada.
Maria de Lourdes, queridinha, voc tem alguma noo do que faz um jornalista?
Espalha a notcia que acabou de descobrir. Passa uma fofoca adiante riu.
Nossa, estou com a barriga doendo de tanto rir, dona Vou Ler Mais Livros a Partir de Amanh ironizei.
T bom, eu leio mais, prometo. Antes que voc fale da nota de matemtica.
5! 5  uma nota inadmissvel.  quase 4, e quatro  quase 3 e 3  praticamente 0, Maria de Lourdes!
Pois . Odeio matemtica, no sou boa com nmeros. Mas puxei a voc, n? Porque 3 no  praticamente 0! Fique sabendo que me
esforcei muito, voc que no quis
me botar num professor particular.
Maria de Lourdes, aprenda uma coisa. Dinheiro no nasce em rvore e professor particular se paga com dinheiro. Achei que seu
pai saberia te explicar a matria
direito.
Que nada! O papai  pior do que o pior professor de matemtica.
E cincias? 6,5, Maria de Lourdes? No dava para ter sido sete? No tem uma nota decente neste boletim?
A professora de cincias  u, no sabe explicar quando a gente tem dvida. Alm do mais, eu no quero ser cientista, deve ser
a profisso mais chata do mundo.
Voc no devia querer repetir de ano, isso sim. Maria de Lourdes, voc precisa estudar mais,  a nica obrigao que voc tem
na vida por enquanto. Como pde se
sair to mal nas provas? Seu irmo  to estudioso e sua irm j d sinais de que ser um pequeno grande gnio da humanidade.
voc  essa negao! Onde foi que eu
errei, Deus meu?
Eu tirei 10 em Educao Fsica. 10! No vai comentar, no?
Claro que no. Grande coisa 10 em Educao Fsica.
Ai, como voc  preconceituosa e injusta!
Pelo andar da carruagem, acho que algum vai ficar em recuperao.
Vira essa boca pra l! No segundo semestre eu meto a cara e corro atrs do prejuzo, ta? Beijo.
Ela foi para dentro e eu fiquei no escritrio remoendo aquelas notas vergonhosas. Sempre fui to boa aluna. Maria de Lourdes
no est nem a para o colgio e isso
me preocupa. Por isso, tomei uma deciso. Tudo bem, devia ter feito isso um minuto atrs, mes tem todo o direito de pensar
melhor sobre um assunto antes de decidir
o que fazer. Fui ao quarto dela e descartei:
A senhora vai ficar de castigo.
Castigo!? Por qu? Tem um monte de gente que tirou nota muito mais baixas!
Eu no sou a me de toda essa gente, sou sua me. Portanto pode comear a meter a cara, a partir de hoje eu vou controlar de
perto os seus estudos. Enquanto voc
no me provar que sabe tudo de cada matria, fica sem Internet, sem play  tarde, sem videogame e sem televiso. Acabou a farra.
E quero que comece agora, j!
Sem Internet, me? Mas eu estudo pela Internet, voc sabe. Isso, sim, vai atrapalhar as minhas notas.
Estuda nada! Voc fica  trocando bilhetinhos com seus colegas, pensa que eu no sei? Eu domino a tecnologia avanada, Maria
de Lourdes.
Para minha raiva, ela soltou uma gargalhada estridente.
Domina nada!  a maior prega na Internet! Atolada.com.br! para comear, ningum troca bilhetinhos na rede, me. Voc no sabe
nem os nomes certos das coisas. Outro
dia nem sabia o que era blog!
Voc est de castigo, Maria de Lourdes! E eu no converso com pessoas que esto de castigo.
Injusta! Insensvel! Cruel! reclamou, indignada.
Odeio bancar a me durona, mas no teve jeito. Se eu no fizer presso, ela passa o dia inteiro de conversinha na Internet ou no
telefone e s estuda para passar.
Nananinano. A partir de agora, rdea curta!
12 ANOS.
Abraando o teatro.
Minha querida primognita resolveu entrar para um curso de teatro. Achei tima idia, teatro solta a cabea, faz pensar, ler,
criar, fantasiar, imaginar e, como
disse Albert Einstein, imaginao  mais importante do que conhecimento. Dei a maior fora.
Em pouco tempo, Maria de Lourdes ficou menos tmida, mais segura de si, mais articulada, muito mais comunicativa. E muito amvel.
Mas amvel demais. Aquele tipo
de amvel que beira o exagerado. Do dia para a noite, minha amabilssima filha resolveu virar uma abraadora profissional.  um
tal de abraa para c, abraa para
l. a menina agora abraa Deus e o mundo. Me pega na cozinha, me agarra e me aperta com fora e me enche de beijo. Com o pai e
os irmos, a mesma coisa. E  assim
aqui em casa, na escola, no teatro, na praia, nas festas.
Povo de teatro  muito dado, muito liberal. No  que eu seja preconceituosa, longe de mim, mas a verdade  que artista  muito
amiguinho de todo mundo e, para eles,
 normal amiguinho beijar boca de outro amiguinho. Minha filha no chegou, e espero que no chegue nunca! Nunca! a essa fase de
dar selinho torto e a direito. Por
enquanto  s abrao.
Querida. depois de abraar com vontade o pipoqueiro, o jornaleiro, a professora, a Alice, o nosso porteiro e o seu Mathias,
da farmcia, voc tinha mesmo que
abraar o Pedro, do 209, daquele jeito? Eu achei aquilo meio.
Meio o qu, me? irritou-se.
Meio desnecessrio, meio oferecido. Voc mal o conhece.
No viaja! O primo do Pedro faz teatro comigo e ele est sempre l com a gente. Ele  praticamente povo de teatro e povo de
teatro sabe abraar super bem. Diferente
de muita gente, que tem abrao frouxo ou que foge de abrao, que no consegue dar um abrao apertado, cheio de energia. Povo de
teatro se entrega nos abraos, d
abraos demorados, apertados, com emoo tentou filosofar.
Minha filha, essa troca de energia  bonita e tal, mas  atiradinha demais para o meu gosto. Agora voc vive pendurada em um
monte de gente. Quem no conhece a
beleza de tanta energia, deve te achar uma menina. como  que vou dizer isso? Fcil.
Fala srio, me! Que comentrio mais sem noo! Eu no estou nem a para o que pensam ou deixam de pensar de mim. Ningum tem
nada com a minha vida.
Claro, voc est certssima. Mas eu acho esse amor excessivo e nada em excesso  bom.
Me, eu gosto de trocar carinho com as pessoas, s isso. Nunca ningum me abraou com vontade aqui em casa. Abrao na nossa
famlia sempre foi de longe, rpido,
sem fora, sem vida. Um abrao pode ser a melhor coisa do mundo por alguns segundos. E quem no quer a melhor coisa do mundo?
abraar com vontade quem eu gosto no
quer dizer que eu seja uma menina facinha. Alis, eu sou a menina menos fcil que conheo, achei que voc soubesse.
Papis invertidos. Levei uma senhora bronca da minha pirralha. Uma bronca elegantrrima, mas uma bronca. E dou razo a ela por
cada palavra, por cada sentimento
que ela ps em seu discurso. Fiquei orgulhosa de sua entrega, das suas verdades. do seu corao. Antes de ir para o quarto,
ela pediu:
D c um abrao?
Ufa! Fiquei aliviada ao constatar que mesmo depois da bronca ela queria me abraar. Dei nela um abrao. Apertado, esmagado,
asfixiado, do tipo que no vai acabar
nunca. E no  que sua teoria do abrao estava certa? Com vontade e entrega, usando cada msculo do corpo e da face, das mos e
dos dedos, um abrao pode mesmo ser
a coisa mais gostosa do mundo. E que bom que ela descobriu isso to novinha e ensinou para mim.
Beijo de lngua.
Estava sentada no meu computador lendo uns e-mails quando, por conta de umas fotos de bebs que um amigo me mandou, lembrei de
como parece que foi ontem que meus
filhos eram pequenas bolotas cheias de dobrinhas.  engraado perceber que muitas vezes Maria de Lourdes, a menos parecida
fisicamente comigo, faz gestos e olhares
que eu faria, toma atitudes que eu tomaria.  muito bacana pensar que criei meus filhos para o mundo, mas deixei neles a minha
marca.
A minha Maria de Lourdes anda numa fase engraada. Est se achando gente, mais mulher, comprando roupas menos infantis, querendo
livros com temas mais adultos. No
fundo, claro, continua uma criana. Criana enorme, j j est mais alta do que eu. s vezes queria voltar no tempo s para
poder carreg-la como um beb de novo.
Por alguns segundos gostaria de ter aquela sensao gostosa de volta. Mas a verdade  que ela ainda  a minha nenm.
Ooooi! disse ela, ao chegar em casa fazendo a baguna de sempre, deixando a mochila num canto, agente noutro.
Oi, amor de me! Estava pensando em voc pequenininha e deu uma saudade. vem c me dar um beijo?
Ela veio, encheu-me de beijos e, sentada no meu colo, perguntou:
Lembra que eu fui ao cinema no sbado?
Lembro, claro.
Sabe o que rolou l?
O filme, u.
No, me! Alm do filme.
Pipoca? Refrigerante? Jujuba?
Que man jujuba, me? Pensa mais um pouco.
Chiclete?
Caraca, no acredito que voc no deu uma dentro! Rolou um beijo, me. Beijo!
O qu? Suas amigas j esto beijando? No me diga, Maria de Lourdes. Aposto que foi essa tal de Alice, sempre achei essa
menina muito saidinha.
Fui eu, me. Eu que beijei.
H? Muita calma nessa hora! Tentei agir naturalmente.
Voc? Olha s, filha. voc beijou. que bom. reagi, sem um pingo de animao com o assunto, admito.
S isso? No quer saber como foi? Com quem foi? Achei que voc ia morrer de curiosidade.
Nossa, estou louca, LOUCA para saber esses detalhes, minha filha, voc no faz idia menti descaradamente. s espera um
minuto que mame vai pegar um copo dgua.
Quer tambm?
Eu precisava mastigar a novidade.
No, obrigada! respondeu ela.
Deixei Maria de Lourdes na sala e corri para a cozinha. Eu pensando que ela ainda era um beb e j tem marmanjo de olho na minha
pequena? Que mundo mais apressadinho!
Maria de Lourdes ainda  uma criana, seu, seu. como  o nome do rapaz?
Ser que rolou um cheirinho no cangote? Uma lambidinha na orelha? Ai, no! Jamais posso perguntar isso para ela. Mas quero saber
tantas coisas. no! No quero
saber nada! Nada! No est muito cedo para uma criana comear a beijar? Uma criana, meu Deus!
Precisava recompor minhas energias e fazer cara de me melhor amiga, entediada tambm como nossa, que novidade bacana voc est
me contando, filha! Respirei fundo
e fui para a sala. O Armando talvez leve isso com mais naturalidade, mas eu sou meio antiquada para esses assuntos de beijo, de
sexo, de relacionamento. na minha
adolescncia ns nunca conversamos sobre isso l em casa.
Ento, filha, agora sou toda ouvidos. Quem  ele?
 o Nando, primo da Alice.
No acredito que  parente dessa Alice.
Me! bronqueou ela.
Desculpa, desculpa, no est mais aqui quem falou.
Ele mora em Friburgo, veio passar o feriado aqui no Rio.
Interessante. E. foi. foi assim. baixei os olhos e a voz, como se fosse falar uma enorme indecncia. foi beijo de
lngua?
D!
Que  isso, Maria de Lourdes, olha o respeito! Foi ou no foi de lngua? questionei, com a testa franzida.
Claaaaaro que foi, me! Voc acha que eu ia dar um selinho num menino de 15 anos?
15? Menina, mas ele  um homem! Deve ser um galalau, se bobear tem barba e tudo! Maria de Lourdes, voc conhece os pais desse
rapaz? Ele  de boa famlia? De
boa ndole?
Ai, me, que coisa mais antiga! Que rapaz? Quem  que fala rapaz hoje em dia? E por que  que eu tenho de conhecer os pais
de um menino s porque dei um beijo
nele? Que coisa mais sem nexo.
O qu? Foi voc que deu o beijo nele?
Ah, tipo assim. eu tomei a iniciativa, mas ele j estava me azarando desde a lanchonete.
Voc tomou a iniciativa? Isso  coisa de menina fcil, Maria de Lourdes!
Mas meninos so lentos, s vezes precisam de um empurro bsico. Alm do mais, eu no agentava mais ser bv, n?
bv? O que  bv, Maria de Lourdes?
Boca Virgem, me! Que desatualizada!
Mas que bobagem! Sabia que no meu tempo a gente s beijava.
Alou! No estamos no seu tempo! Vai comear esse papo chato de no seu tempo de novo?
ta bom, desculpa.
No vai perguntar se foi bom?
Ela estava realmente decidida a ir fundo no tema. E eu sem a menor vontade de saber como foi. Precisava de tempo para digerir as
informaes anteriores. Mas Maria
de Lourdes estava numa ansiedade frentica, queria porque queria contar tudo logo. E eu, que sempre quis bancar a me moderna,
a me bem resolvida, a me antenada.
tive de agentar, com pinta de superinteressada. Mantive a pose:
Sim, querida, claro. . como foi?
Foi molhado. Mas a, me, muito, muuuuito molhado.
Ui! E eu tendo de reagir naturalmente.
Molhado? Veja voc, no me diga.
Digo. Foi bem gostoso, mas tambm foi, assim, meio nojentinho, sabe? Muito estranho ter a lngua de outra pessoa no meio da
boca.
Menos detalhes, Maria de Lourdes! No precisa contar cada segundo desse beijo, ande logo, encurte essa histria!
O primeiro foi uma baba s continuou, para meu total desespero.
No queria ouvir aquilo. Era horrvel visualizar uma lngua cheia de cuspe dentro da boca da minha filhinha.
Shhh! Olha o vocabulrio chulo, Maria de Lourdes! Espera a! Como assim primeiro? Teve mais de um? assustei-me.
bvio. Mais um, mais dois, mais trs. e a cada beijo ia ficando mais gostoso e menos nojentinho. To bom, me! To bom! No
vi nada do filme.
Foi, filha? Nossa, que interessante. Mas vocs no ficaram de salincia no escurinho do cinema, no, n?
Fala srio, me! No acredito que voc disse essa palavra! Salincia? Nem a vov diria isso. Mas, para a sua informao, no,
no fiquei de salincia no cinema.
Eu me comportei muito direitinho.
Est bem, desculpa. Fico feliz em saber que foi bom, filha. E agora? Vocs. vocs esto namorando?
D! Claro que no! Ele mora longe. E eu no estou nem um pouco a fim de namorar!
Ai, que alvio! Uma queima de fogos tomou conta do meu peito nessa hora, era muita felicidade. Apoiei veementemente sua deciso.
Isso mesmo, filhota! Vai aproveitar o restinho da sua infncia, brincar, pular amarelinha, correr, jogar,  isso que voc tem
que fazer.
Me, o que eu ia dizer  que eu quero ficar com os meninos, no namorar com eles. no mximo um namorix.
Namorix? Que diabo  isso?
 um namorado que no  namorado srio,  s um namorix.  mais srio que ficar e menos srio do que namorar srio.
Srio?
Srio. Sacou?
Saquei. respondi, meio zonza com tanta informao nova.
Alm do mais, se eu posso ter vrios por que vou me prender a um s? Quando isso acontecer, eu vou estar apaixonada, pensando
e querendo estar com o menino vinte
e quatro horas por dia. Antes disso, quero beijar muitas bocas e ser feliz pra caramba!
Ela me deu uma bitoca estalada na bochecha antes de voar para o chuveiro. Nem percebeu que eu ainda estava de queixo cado. E me
deixou a pensar. A pensar que essa
menininha que eu tanto amava e queria carregar novamente no colo havia poucos minutos tinha ido embora mesmo. Um pouco mais cedo
do que eu gostaria, mas fazer o
qu?
Hoje, ela escolhe roupas, livros e cds sozinha e j beija de lngua no escuro do cinema.  a menina cedendo lugar no  mulher,
mas a uma linda mocinha. A minha
mocinha. Que tem vontade e pensamentos prprios, opinies formadas, certezas, desejos e verdades que borbulham na sua cabecinha
adolescente. Cabea que se orgulha
de ter idia e ideais, que me ensina muito, diariamente, e que se expressa com clareza e coerncia atravs de gestos, atitudes e,
principalmente, palavras.
, palavras. A partir de agora, tenho certeza, ela j pode falar por si prpria.
13 ANOS.
tpm ou todos os problemas no mundo.
Odeio dar o brao a torcer, mas minha me estava certssima quando disse que menstruao era a coisa mais chata do mundo. Estou
no meu terceiro ciclo e j cheguei
 concluso de que essa sangria vai me deixar pra l de irritada pelos prximos 40 anos, no mnimo. Que lstima! Menstruao 
u! U!
E o pior de tudo  que no me sinto nem um pouco mais mulher, como achei que aconteceria. Sou a mesma adolescente de sempre, s
que pior, porque nesse exato momento
estou espinheta e inchada, com a menstruao veio a dura constatao: alm de sangrar, mulheres no perodo menstrual engordam e
tambm enfeiam, j que ficam cheias
de pipocas na cara, uma delcia!
Sem contar com o humor, que vira de cabea para baixo com a tpm que, em vez de Tenso Pr-Menstrual, devia se chamar Todos os
problemas do Mundo. Nesse perodo horroroso
tudo vira problema, tudo me leva s lgrimas, at mesmo comercial de eletrodomsticos, me faz chorar minutos a fio. Nada veste
bem, nada que eu bote no rosto e nas
unhas me deixa bonita, nada me deixa feliz. Nada. Minha vida vira um dramalho nos dias que antecedem a menstru, uma mala.
Para coroar, hoje o povo vai aproveitar o sol na piscina do prdio da Alice, com direito a churrasco e tudo at altas horas. E
eu em casa, de molho, com saco de
gua quente na barriga por causa desta maldita clica! Como di! E pensar que eu j achei, de verdade, que menstruar era lindo.
Onde eu estava com a cabea?
Impacincia, seu nome  Malu. Comecei a ler um livro, achei chato. Fui pra internet, chata. Televiso, chaaaaataaaa. O que me
resta? O telefone, claro.
Sempre gostei de telefone, desde pequena. No tem chat que substitua um bom telefonema entre amigas. Liguei para a Alice, que
estava toda prosa arrumando as coisas
para receber a galera. Morri de inveja, queria poder ajud-la com os preparativos.
Enquanto eu falava, minha me andava de um lado pra outro na sala.
Engraado  que ela pensa que disfara bem e que eu no notei que ela queria, na verdade, regular o tempo da minha conversa.
minha me no gosta de telefone e acha
que isso devia ser hereditrio. Mas no .
Conversei com a Alice sobre vrias coisas importantrrimas. Os cds que seriam a trilha sonora do churrasco, o biquni que ela
usaria, se ela recebia o povo de cabelo
preso ou solto, se passava o xampu para dar brilho ou o anticaspa, se botava o short azul ou o vermelho, se apresentava o
barrosinho, com quem ela est ficando,
para os pais, se apresentava algum para os pais, se dizia para o Barrosinho que o Janjo est dando mole para ela.
Chega, Maria de Lourdes! Agora chega! Voc est h uma hora neste telefone! no  possvel que voc estude com essa garota,
viva grudada com ela para cima e para
baixo e ainda tenha tanto assunto para falar. Amanh na escola vocs conversam.
Ei, me! Pra com isso. Olha a falta de respeito, eu estou falando. Desculpa, Alice!
Desculpa Alice? Desculpa, me, voc quis dizer, no ? Voc acha que telefone  um servio gratuito, oferecido pelo governo?
Ih, me, que saco! Vou ligar do meu celular, Alice, espera a!
Do celular? Enlouqueceu? Vai sair muito mais caro. Sou eu que pago a conta do seu celular, sabia, Maria de Lourdes?
Malu, me, Malu!
Malu uma ova! Maria de Lourdes!
No repara no, Alice. A mulher acordou com o ovo virado, tem um monte de trabalhos pendentes para fazer e est descarregando em mim.
Cala essa boca! No tem nada que ficar falando da minha vida para essa garota.
Essa garota tem nome,  Alice.
Pois diga para a garota que tem nome que voc precisa desligar porque sua me  jornalista e jornalistas no nadam em dinheiro.
Pelo contrrio.
Espera, me! Que chatice!
No espero, no. Quer fazer o favor de dizer para essa Alice que voc tem de desligar porque sua me t mandando?
No preciso dizer, voc est berrando tanto que tenho certeza de que ela est ouvindo, n, Alice? Que desligar, o qu?
Vamos continuar conversando, ela precisa aprender a tratar meus amigos com educao.
Era s o que me faltava.
Eu trato todos os seus amigos com educao e carinho. Faa o mesmo e pea desculpas para a Alice, me.
Voc est me desafiando, Maria de Lourdes! Largue j esse telefone.
Eu j estou acabando, voc que est a atrasando tudo. Se no estivesse aqui do meu lado tagarelando, eu j teria terminado h
sculos.
Ah, ? Ento vamos combinar uma coisa? A partir de agora voc paga as horas que passar ao telefone. Eu sublinharei todos os
telefonemas que voc der e descontarei
da sua mesada. Que tal?
Absurdo.
Absurdo  perder horas falando um monte de besteiras com uma garota que voc v todos os dias.
Alice, deixe-me ir, hoje ela est com a macaca.
Olha o respeito, Maria de Lourdes!
Malu, me! Malu!
No supermercado.
Hoje foi o dia de um dos programas mais malas da minha vida. Acontece mensalmente e  sempre assim: sem me avisar nada, minha
me me pega no colgio, deixa meu irmo
na capoeira e minha irm no bal e me leva para o supermercado. Assim, sem d nem piedade, sem me dar chance de argumentar, ela
me seqestra por trs horas. Eu,
que invariavelmente saio do ltimo tempo de aula esfomeada, tenho de me contentar com uma gororoba de fibra que ela carrega na
bolsa. s vezes nem isso, porque a
parada de fibra muitas vezes est fora de validade.
No estacionamento, descobrimos que o supermercado estava lotado, demoramos uns vinte minutos para achar vaga. Dentro do mercado,
passamos interminveis minutos comparando
preos, estalando vagens, analisando e tocando guelras, irc! empurrando carrinhos pesados, entrando em fila para pesar
alimentos e nos perdendo uma da outra. Superagradvel.
Quando me perdi dela pela ensima vez, minha pacincia tinha ido para o p. Eu estava amolada, irritada com aquela luz fria que
deixa todo mundo feio, apoquentada
com o bando de gente em volta, verde de fome. Que vontade de sair, de gritar! De repente, uma voz que lembrava uma buzina ecoou
naquele murmurinho:
Maria de Lourdes! Corre aqui, Maria de Lourdes! Achei uma blusinha que  a sua cara! E baratsima! Vem experimentar.
Se voc gostar mame te d duas, uma de cada cor.
Andei na sua direo, empurrando aquele carrinho que pesava uma tonelada e soltando fumaa pelo nariz.
Me, que idia! Eu no quero blusinha nenhuma, quero ir embora. Vamos sair daqui!
No acredito. S porque  de supermercado? Deixa de ser besta, Maria de Lourdes! Depois diz que eu  que sou preconceituosa.
que desgosto, minha filha virou uma
metidinha prepotente!
Qu? No  nada disso, eu s quero ir para casa comer e descansar. Alm disso, no estou precisando de roupa.
Nem de calcinha? Ah, filha, aqui tem umas lindas de algodo. o pacote com doze custa dez reais, est de graa! E voc est
precisando de calcinha, Maria de Lourdes.
Por que voc quer comprar essas coisas agora? J viu o tamanho das filas? Vamos para casa, estou morta de cansao, e estamos
h duas horas rodando nessa sauna.
Mas est tudo to baratinho. e suas calcinhas esto furadas, pudas, com o elstico frouxo.
Precisa falar to alto? Sua voz est no volume mximo, parece um megafone!
Ah,  que acabei de voltar da casa da sua av. Ela est cada vez mais surda, a fico assim, falando alto.
Pois , mas chega, no precisa mais berrar. Agora o Rio de Janeiro inteiro acha que eu preciso de calcinha, porque o Rio de
janeiro inteiro est nesse supermercado.
Vamos embora?
Para o teu governo, Maria de Lourdes, roupa de supermercado  coisa muito boa, viu? Calcinha de supermercado tambm  coisa
de qualidade, coisa moderna, coisa
bacana. Tem gente muito criativa fazendo roupas para supermercados. No estou dizendo para comprar sempre, mas a gente pode
achar coisas divinas no supermercado.
Mas eu no tenho nada contra roupas e calcinhas de supermercado! S no estou a fim de roupa agora. Quero ir embora.
Nesse momento, uma senhora baixinha de cabelos encaracolados aproximou-se de ns duas e se meteu na conversa sem a menor
cerimnia:
Desculpa, mas as roupas daqui so nota mil, viu, garota? tima qualidade, timos tecidos, timo corte.
No acredito! Isso podia ser um pesadelo, mas aconteceu de verdade. Ningum merece! Ela continuou:
Compro tudo aqui. Roupa para meus filhos, para os meus netos, para mim. e quer saber? Ningum nota que  de supermercado.
uma vez comprei um casado, falei que
era de Nova Iorque e todo mundo acreditou contou, com pinta de vitoriosa. Essa coisa de preconceito  bobagem.
Ai caramba! Quem falou em preconceito?
Eu tenho certeza de que as roupas so timas, mas eu no estou precisando de nada agora. Estou cansada, preciso de comida e
cama expliquei.
Cansada. cansada de qu? espetou ela. Essa juventude de hoje, tsc, tsc, tsc. ainda bem que eu j criei meus filhos.
esses jovens s ligam para marca, para
grife conhecida. Grife nada mais  do que uma etiqueta, menina. E quem liga para etiqueta? No seja tola, voc est caindo nas
armadilhas do sistema!
Mas quem disse para a senhora que eu no quero porque  do supermercado? Eu s no estou a fim de comprar mais nada, muito
menos roupa, que eu no preciso. Vamos,
me?
 uma mal-agradecida, a senhora v? Mas sabe o que  isso? Encontrou uma amiguinha bestinha do colgio e no quer que ela veja
a gente comprando roupa no supermercado.
Como  que ?
No  nada disso! Deixa de inventar histria, me! A Clara j deve at ter ido embora. Estou achando que a preconceituosa aqui
 voc, que comeou com essa histria
sem p nem cabea de preconceito.
Filha, preconceituosa .
Ai, caramba! Essa prosa no ia acabar to cedo. Precisava dar um corte antes que comeasse tudo de novo, no h nada mais
irritante do que discusso em looping.
Precisava mudar de assunto, precisava dizer qualquer coisa para me livrar desse dilogo maluco.
Amanh a gente vem aqui e compra a blusinha, ta?
Inacreditvel, mas foi a nica coisa que consegui pensar.
Est bem disse minha me, satisfeita. promete?
Prometo.
Ufa! Nem acredito que consegui, enfim, dobrar a minha me. Empurramos os carrinhos na direo dos caixas. Todas as filas estavam
enormes. Escolhemos a menor e ficamos
l paradas um tempo. Como a fila no andava, minha me tentou uma ltima vez:
Voc no quer ficar aqui esperando enquanto eu vou l rapidinho pegar s aquele pacote de calcinhas? Dez reais, Maria de
lourdes! Dez reais!
Ah, me, fala srio!
Medo de escuro.
Eu morro de medo de escuro. Culpa da minha me, que cantava, ou melhor, me torturava com umas musiquinhas sinistras para me fazer dormir.
Eu tentava com vontade
arregalar os olhos para mostrar a ela todo o meu pnico, mas minha me tinha uma ttica para manter minhas plpebras fechadas:
colocava as mos em cima delas, me
obrigando a permanecer no escuro total enquanto ela entoava cantigas arretorizantes como Jururu Marambaia, um cara que se
aparecesse l em casa, eu mataria sem d
nem piedade! Mataria!
Minha me no devia bater bem naquele tempo. Alis, at hoje no bate. Fui tirar satisfao com ela, perguntar se eu ficaria com
esse medo ridculo pra sempre ou
se devia procurar um terapeuta para resolv-lo.
Deixa de ser dramtica, Maria de Lourdes. Eu cantava para voc o que minha me cantava pra mim quando eu era pequena.
Mas como uma jornalista culta como voc nunca pensou no teor das letras?
Eu pensei, mas eram as nicas que eu conhecia. Espera a! Talvez seja por isso que EU no goste de escuro.
Voc tambm?
U, voc no sabe que durmo com uma luz atrs da cama, para quebrar o breu?
Me, ento  isso! Voc tambm sofreu traumas por conta das letras dessas msicas infantis que mais parecem de terror.
No, filha, alto l! A gente no pode afirmar isso! Tudo bem que at hoje morro de pena do coitado do gato que no morreu com
o pau que a pessoa m e mal-amada
atirou nele. Mas talvez isso no tenha nada a ver com o nosso medo de escuro. Afinal, essas msicas esto a a tanto tempo.
ns no temos de culpar ningum pelos
nossos medos.
, a gente nunca vai saber a causa desse medo idiota.
E nem precisa! Vamos  lutar contra esse medo estapafrdio!
Fechado! Medo de escuro no est com nada. Eu aposto um sorvete com voc que vamos conseguir, me. A partir de hoje,
dormiremos no escuro total, sem luz por perto.
Topas?
Topado.
Passamos a dormir de luz apagada e, em pouco tempo, perdemos o pnico que tnhamos de escuro.
Fiquei feliz por ajudar minha me e pelo fato de ter conversado com ela sobre esse medo bobo. Ponto para o dilogo e para a
determinao! Ip ip urra!
Bem que podia ser sempre assim.
14 ANOS.
Viva o futebol!
Desde pequena eu vejo minha me travar brigas homricas com meu pai por causa da televiso. Faz sentido. Ele acha que tem o
direito de guiar a nossa vida pelas partidas
de futebol e a programao esportiva do fim de semana. ela acha que o certo seria aproveitar os dias de folga para fazer
programas que a famlia toda esteja unida,
confraternizando, como piquenique, teatro, exposies.
Tricolor convicto, meu pai sempre ignorou essas iniciativas de programinhas famlia. Para ele, o fim de semana perfeito consiste
em ficar esparramado no sof a tarde
inteira vendo jogos importantssimos como Bangu x Cabofriense, Amrica x Friburguense, e por a vai. Meu pai v qualquer jogo.
a qualquer hora. E isso irrita, no
tiro a razo da minha me. O pior  que quando acaba o futebol e ele emenda no que estiver passando na tev: esgrima, corrida de
cachorros, tnis de mesa, campeonato
de xadrez, de sinuca. E, acredite, continua a vibrar com toda intensidade na frente da tela.
Mas minha me entrou no jogo. Pensou: Ento ele gosta de futebol? Eu tambm posso aprender a gostar dessa porcaria. Tirou de
letra o desafio. Da noite para o
dia, passou a estudar o assunto, a ir aos estdios, a assistir aos jogos, a ler o caderno de esportes, a ver mesas redondas
tarde da noite. em pouco tempo sabia
de cor os nomes dos titulares e reservas do Fluminense, um feito e tanto se tratando de uma mulher.
O amor pelo futebol passou de me para filha e, hoje em dia, vemos jogos aos urros. A diferena  que eu sou botafoguense.
escolhi o Botafogo, para desespero dos
meus pais, quando pequena porque gostava da combinao do preto com o branco e achava aquela estrela uma graa, amo estrelas.
atualmente, alm de no fazer feio
nas peladas do colgio, toro pelo Botafogo com as vsceras. Resultado: domingo passado, meu pai pedia silncio na sala, ordem
na casa, clamava por um calmante para
botar no que bebamos, queria, a todo custo, calar a nossa boca. Pudera. O coitado no conseguia escutar os comentrios da tev.
S os nossos.
O time t jogando aberto. Assim no d! reclamou minha me.
Pior  a gente, que est jogando l atrs. Sai da, menino, chuta essa bola para frente! Para frente! opinei, esbajando
conhecimento futebolstico.
Eeeca! Por que  que todo jogador de futebol vive cuspindo? E Por que mostram a cusparada sempre em close? descontraiu
malena, minha irm caula, seis anos mais
nova do que eu.
Cala a boca, mulherada! Tem gente paga para comentar a partida. Vamos ouvir o que eles esto dizendo implorou meu pai,
nervoso, olhos fixos na tela.
No acredito! Que impedido, que nada! No tem me, no, , juiz filh.
Olha a boca suja! Sem palavro, filha, j combinamos isso repreendeu-me minha me. Armando, querido, o que ns j
conversamos sobre descanso de copo? Olha
a mesa, est ficando toda manchada, tsc.
Arr, depois eu limpo.
Depois? Depois quando, Armando? At voc decidir limpar, a mesa vai ficar manchada mesmo, e que se dane?
,  isso rebateu papai, sem piscar e sem tirar os olhos atentos da tev.
No, no. A questo no  limpar, Armando. precisamos mudar nossos hbitos, temos tantos descansos de copo, todos lindos.
olha a, est pingando tudo, caindo
no tapete.
P, ngela, agora no d para prestar ateno nisso, meu amor, passa essa bola, passa essa bola.
Mas  s levantar e pegar no armrio, o que  que custa?
J vou pegar! estorou ele.
Ih, pai, no precisa ser grosso. reclamei.
Assim no d, a bola no est chegando no ataque! ele deu uma de tcnico.
Depois vamos pegar uma comdia para ver? sugeriu Malena.
Gente, assim no d, vou ter de comprar uma televiso s para mim, est cada vez mais insuportvel ver o jogo com vocs
resmungou meu pai, enxugando o suor tenso
da testa e dando uma golada na sua cerveja, que continuava pousada na mesa, sem descanso de copo.
No  possvel. Passa essa bola, passa essa bola, passa ess. na cara do goleiro e o idiota me perde essa chance! chiei.
Acho esse cara bonito. comentou minha irm.
Quem, o 9 ou o 10?
O 10. Qual o nome dele?
Falta! Foi falta! Ah, no! O cara no vai dar falta? Que  que  isso? Juiz de m.
Armando, ateno com o vocabulrio perto das crianas!
T bem, ngela! Juiz porqueira! Juiz irresponsvel, juiz vendido! Vendidooo! Filho de uma gua!
Assim est melhor elogiou minha me, genuinamente feliz com os bons modos do marido. Viu como d para ver futebol sem palavro?
 s se policiar.
Pai, qual o nome do camisa 10?
O nome dele . pnalti!
Uuuh, foi pnalti, Armando! Vamos dar as mos e torcer, amor, torcer muito. Mas no vamos deixar o nervosismo entrar, antes
respira, respira, lembra o yga.
Que yga, ngela? Que yga? Fala que nem macho, iga! Ou voc por acaso diz futebol? Se no  futebol, no  yga,  ioga.
no me venha com frescurinha, estou
irritado!
Ah, pai, d um tempo! Gente, que juiz brega! Que topete  esse? observei.
Deve ser brilhantina esclareceu mame.
Brilhantina? O que  que  isso? quis saber Malena.
 a prima pobre do gel. Ser que d para a gente focar no jogo agora? pediu papai.
Como assim prima pobre do gel? perguntou minha irm.
No sei, filha, no sei! Nem sei por que falei isso, depois agente conversa sobre esse assunto interessantssimo. Agora vamos
ouvir o que eles esto dizendo! Vamos
ficar quietinhos e fazer a brincadeira do silncio? Vamos l, Vaca amarela.
No diga bobagem, Armando, elas no so mais crianas para brincar de Vaca Amarela.
Ih, o papai est chato hoje reclamei.
Hoje? completou minha irm, implicante.
Cacetada! Devia ter ido com o Mam e os amigos dele para o Marac, viu? L eu ia ter sossego!
Que Mam, Armando? Quem  Mam? Armando Batista Siqueira da Paz, espero que voc no chame nosso filho de Mam longe de mim.
no incentive esse apelido medonho.
O nome dele  Mrio Mrcio. Mrio Mrcio! estressou-se mame.
Vamos ficar calados para torcer! Momento importante do jogo.
Vai errar, vai errar! gritava eu.
Senta e pra de pular, Malu, assim voc tira a concentrao da gente.
Deixa ela, Armando, no implique com a menina s porque ela  botafoguense. E o nome dela  Maria de Lourdes!
Vamos ver a cobrana, mulherada! Olha a cobrana! Sai da frente da televiso, Malena! Voc acha que  de vidro, minha filha?
 gol! Gooooooll! anunciou o locutor.
A! Olha a! No vi a porcaria do gol. No acredito.
Uuuuuh! Uuuuuuuuh! Sai Flu! Perde Flu! Que se dane o Flu! O Flu no  nadaaaa! Uuuuuh!
Cala essa boca, Maria de Lourdes! Vamos torcer sem agredir os adversrios! pediu minha me.
Meu Deus do cu! Meu Deus do cu, como pode ser to difcil para vocs ficar em silncio? Falam pelos cotovelos at vendo
futibol! exasperou-se meu pai, num
verdadeiro ataque de perereca. Eu s queria um pouco de sossego. olha a, olha a! Expulsaram o zagueiro e eu nem vi por qu!
Voc viu, ngela?
No, estava pensando no que vocs achariam de um petisco. Pipoca ou amendoim?
Ssshhhh! Depois a gente pensa em comer, agora no, n? Vamos prestar ateno no jogo implorou ele.
Eu topo pipoca respondeu Malena.
Doce ou salgada?
Doce pediu minha irm.
Salgada contrariei.
Doce! Doce! Doce! venceu Malena, pela insistncia e pelo aumento de voz.
Deus, dai-me pacincia, por favor! pediu meu pai ajuda divina, controlando-se para no atirar o aparelho de tev em cima da
gente.
 goooool! Goooooool! Do botafogo! Final de jogo dramtico aqui no Maracan anunciou o locutor.
Pai, por que na hora de comemorar o gol, que  quando os jogadores so exaustivamente filmados e fotografados, os caras tiram
a camisa? No seria mais apropriado
mostrar amor  camisa? Mostrar respeito aos caras que pagam o salrio deles? O patrocinador no reclama? Os dirigentes do time
no reclamam? Como deixam isso acontecer?
. acho que isso pode dar uma matria, Malu. Depois a gente conversa.
Puxa, at que enfim voc deu ateno para mim. Eu tambm acho que.
Chuta! Chuta essa bol. no de trivela, seu imbecil! reclamou meu pai, usando toda a capacidade de sua goela, ignorando
novamente minha presena.
Droga. Depois de uma partida tensa, o Fluminense levou a melhor, dois a um. E mesmo assim meu pai terminou o jogo de cara
amarrada. Mas era s o comeo do campeonato.
Muitas guas rolariam ainda. Prevendo isso, ele providenciou o que anunciara. Comprou uma tev nova para o quarto e se tranca l
sozinho com umas cervejas geladas
e um pacote de amendoim em dia de futebol.
Tijuca, no!
Tchau, me, vou estudar na casa da Joana! gritei, j quase batendo a porta de casa.
Conversinha esse papo de estudar junto. A J ganhou do pai dela, que acabou de voltar de viagem, um superkit de maquiagem e
esmalte. Supercolorido, todas as cores
de tudo. No vejo a hora de experimentar cada rmel, cada gloss, cada coisinha.
Onde  que essa Joana mora? gritou ela de dentro do banheiro.
Do lado do aougue.
Na Tijuca!?
. Aqui na Tijuca.
Aqui na Tijuca, no senhora! Aqui no  Tijuca! Aqui  Graja!
Fala srio, me! A casa dela fica a dois quarteires daqui. Sinto informar, mas moramos na Tijuca.
Nananinano! Ns moramos no Graja!  s checar a conta do gs, do telefone, da luz. so todas para o Graja. Pode conferir,
esto na minha mesinha de cabeceira.
S a incompetente da companhia do celular  que acha que ns moramos na Tijuca.  a nica conta que chega berrando: Tijuca. J
liguei para reclamar. Dez vezes! No
fazem nada. Nada, nada, nada! Ningum faz nada direito nesse pas.
Ih, me. que foi que houve? Brigou com o papai de novo? Ou est na tpm?
Cala essa boca, Maria de Lourdes! Voc est com a porta da casa aberta gritando isso? Entra agora! Olha os vizinhos!
No resisti:
Que vizinhos? Os vizinhos da Tijuca?
Eu no moro na Tijuca! Eu moro no Graja! Est no mapa da Prefeitura, Maria de Lourdes, a Tijuca fica s a duas ruas daqui,
portanto, eu Nno tenho vizinhos da
Tijuca!
Que coisa ridcula! Que pequeno! No acredito que voc foi checar no mapa da Prefeitura. Horrvel voc pensar assim! Qual o
problema da Tijuca?
Ah, Maria de Lourdes, o Graja  muito mais chique, muito mais residencial, muito mais aconchegante, muito mais arborizado.
Que doida! A Tijuca  um bairro timo, me. A sua padaria  na Tijuca, as suas amigas moram na Tijuca, sua locadora  na
tijuca, meu colgio  na Tijuca. E, verdade
seja dita, voc compra seus sapatos na Tijuca!
No! Fala baixo, garota!
Sim! Sapatos, sua grande paixo. E compra na liquidao! Pagando em doze vezes. Doze vezes! berrei o mais que pude, com a
cabea totalmente para fora de casa,
voltada para o corredor do andar. Que ridculo ela pensar assim do nosso bairro!
Maria de Lourdes, querida, voc no estava de sada? Pode ir, sim? Beijo!
Beijo, me! Vou estudar bastante! Aqui na Tijuca mesmo, t? Pertinho, no precisa se preocupar! Tchau! impliquei.
Bati a porta e desci correndo as escadas do prdio. Ela ficou do banheiro gritando coisas que no consegui entender. Ainda bem.
Festa de debutante.
No tem a menor condio de o bolo ser uma bandeira do Fluminense, me! Ficou maluca?
Por qu? Seu pai ia ficar to feliz, e o que conta  o recheio. Pense bem, Maria de Lourdes, ele vai gastar tanto dinheiro
nessa festa. o bolo tricolor seria
um agrado, querida. Mas a moa pode fazer tambm a camisa laranja, que voc tanto adora.
Pirou? No adoro nenhuma camisa do Fluminense, eu sou Botafogo! S elogio a laranja porque j que todo domingo o papai almoa
uniformizado, melhor ela que a tricolor.
Menos mico.
Ento est bem, esquecemos o Fluminense. Uma pena, porque j que reservamos o salo de festas do clube teria tudo a ver um
bolo temtico.
Bolo temtico? Voc est louca? No existe a menor possibilidade de eu querer uma festa temtica no Fluminense, me! Que idia!
Que obsesso tricolor!
Est bem, est bem, depois a gente conversa sobre isso. Voltemos ao bolo. Que tal fazer um de trs andares, tipo cascata?
Nem pensar!
Eu nem queria festa. Achei um absurdo os meus pais planejarem uma festa de debutante  moda antiga sem perguntar a opinio da
maior interessada, a aniversariante
aqui. Ainda bem que ouvi a conversa dos dois ontem  noite, seno estaria ferrada.
Queramos fazer surpresa. Nunca achamos que voc daria esse piti.
Eu no gosto daqueles vestidos tipo bolo, no gosto de valsa, no gosto de pompa, no quero ser obrigada a danar com ningum
e no quero dizer s minhas amigas
o que elas devem vestir. Acho u festa de 15 anos. U! O maior mico.
Que mico, o qu? Festa de 15 anos  uma coisa linda, para vida toda, fica na memria da gente para sempre. Voc no viu
lbum de fotos da festa da sua me, que
espetculo?
Uma cafonice sem fim aquele lbum. A comear pela capa, de veludo rosa e fecho dourado, ningum merece!
Voc  uma estpida, no entende nada de nada. E o papel-manteiga entre as fotos? No vai comentar? Diga para mim, Maria de
lourdes, tem coisa mais sofisticada
que papel-manteiga?
Consigo pensar em pelo menos um milho de coisas mais sofisticadas que papel-manteiga, me! Que viagem! Preferia uma coisa
mais legal para comemorar meus 15 anos,
tipo ir para Disney ou botar silicone.
Que silicone? Voc s pode estar brincando, Maria de Lourdes. No vou nem discutir essa hiptese.
Por qu? Eu ia amar ganhar peitos novos, isso seria um presento.
No diga sandices! Voc  uma criana, seus peitos ainda vo crescer.
Vo nada, pareo uma tbua de passar.
Claro que vo, filha. Quando voc crescer e tiver o prprio dinheiro bota silicone, est bem?
Ta, n? Fazer o qu?
Que idia pedir peito novo de presente! Ai, se seu pai ouve isso!
Festa, ento, s se for numa boate que eu escolher.
Mas festa de debutante em boate? No combina! Festa de debutante que se preza  um salo de clube ou buf chique. j tinha
pensado em tudo, ia ser uma festa
to linda.
To cada!
To tradicional.
To nada a ver comigo!
To romntica.
To queima-filme!
To animada.
To mico! Esquece essa festa e me leva para a Disney! Por favor!
E o seu vestido, que eu j mandei fazer na costureira?
O qu? Me, voc nem perguntou se eu queria festa, como assim encomendou o vestido?
H anos eu tenho no armrio um tecido que a sua av trouxe de Paris, guardado para uma ocasio especial. Somando a isso, a
dinorh, a costureira, me ligou outro
dia, coitada, est sem dinheiro, a clientela sumiu, reclamou  bea e depois perguntou se eu no tinha nenhum vestidinho para
fazer. Ento encomendei esse para o
seu aniversrio. A gente precisa ajudar as pessoas, Maria de Lourdes.
timo ajudar. Mas guarda o vestido para outra ocasio.
Para o seu casamento, ento, com 19 anos.
Quem disse que vou casar com 19 anos, me?
Que espanto  esse? Eu casei com 19 anos.  uma idade linda.
Sem chance. Quero namorar muito com 19, 20, 21, 22. a, quem sabe, comeo a pensar em casamento.
Ah, ento vamos fazer a festa de 15 anos. No vou gastar uma fortuna num vestido que vai ficar no armrio pelos prximos oito
anos. At l j saiu de moda.
Me, eu no quero festa de debutante. Minha vontade no conta?
Conta, mas agora no d mais tempo, est muito em cima e j est tudo marcado: buf, salo de festas, decorao, flores,
orquestra. s falta fechar com a mulher
do bolo. No tenho coragem de ligar para desmarcar, fica chato.
No fica nada chato, me! Faltam cinco meses para o meu aniversrio, d para marcar e desmarcar mil festas. Deixa que eu ligo.
Com o maior prazer.
Ih, est bem, Maria de Lourdes! Assim no tem clima para festa, mesmo.
timo. O que vocs vo me dar ento?
Hum. deixa eu ver. j sei! A gente pode te dar um quarto novo. Botar tudo em salmo. Salmo e bege. Bege  muito chique.
Salmo e bege?
Salmo  u e bege  bege, caramba! Tem coisa mais sem graa do que bege? E quem disse que eu quero um quarto novo?
e nessas cores horrendas? Eu gosto do meu
quarto como est.
Mas ia ficar to lindo. e sairia bem mais em conta do que a festa.
timo, mas no. Me. vamos fazer uma coisa diferente? Eu escolho o presente, ta?
O meu francs.
Voltei de viagem hoje. Passei na minha av e meus irmos uma semana em Tiradentes, Minas Gerais.  terra boa! Voltei com
insuportveis trs quilos a mais, de saco
cheio dos meus irmos,  viajar com eles  chato, chato, chato, mas tambm descansada, renovada, bem-humorada, com flego novo.
Cheguei em casa cantando, dando
pulinhos, toda alegre. Enquanto a Malena e o Mam iam para o quarto desfazer as malas, minha me me puxou num canto e comunicou:
Renovei sua matrcula no colgio.
Oba, me! Obrigada. Deu tudo certo?
Certssimo. E com uma novidade. A partir de agora, e pelos prximos trs anos, voc vai falar. francs! Tchar! disse ela,
com um sorriso de orelha a orelha.
E no precisa me agradecer, viu?
Francs? Por qu? quis saber, indignada.
Porque ingls voc j faz curso, j sabe, j fala mais ou menos. achei que seria melhor aproveitar os ltimos anos de
colgio para aprender uma nova lngua,
ento votei na turma de francs explicou, lanando mo da quase inexistente coerncia materna.
Voc s pode estar brincando. Como  que eu vou fazer agora?
Vai estudar francs, u.
Eu no quero estudar francs! Nunca tive a mnima vontade. Como  que voc teve coragem de fazer uma coisa dessas comigo, me?
Que absurdo!
Porque achei que voc ia gostar. A lngua francesa  to chique, to bonita, to imponente!
To complicada, to cheia de bico, to lotada de verbo! reclamei. preciso trocar isso agora. Ser que a secretaria est
aberta?
. hum. filhinha. queridinha. no vai dar para voc trocar. Acabou ontem o prazo para alteraes na matrcula, as
turmas esto fechadas.
No  possvel! Me! O que foi que voc fez? Voc no podia fazer isso, eu no sou mais criana esperneei o quanto pude.
 que eu te amo, meu Deus!
Ama nada! E Deus no tem nada a ver com isso, coitado!
Voc  mesmo a rainha do drama, no , Maria de Lourdes? Eu te fao um favor e recebo agradecimento patadas e mais patadas?
o que  que tem de to ruim na aula
de francs?
Tudo  ruim na aula de francs. Tudo. Voc tem noo de que daqui a dois anos eu vou ter de estudar feito uma louca para o
vestibular? Como  que voc me arruma
mais uma matria para estudar, me? E sem necessidade, porque no vestibular eu no vou fazer prova de francs, vou fazer de
ingls!
Mas estudar e aprender coisas novas  sempre timo.
Me, ser que d para voc se colocar no meu lugar por um minutinho? Voc acha timo aprender coisas novas. Eu no. E sabe
por qu? Porque eu no sou voc.
Maria de Lourdes, poupe-me de seus sermes adolescentes, sim?
No, no vou te poupar, no! Todos os dias da minha vida eu fao um monte de coisas s porque voc quer. Vou ao ingls porque
voc quer, fao natao porque voc
quer, leio livros que voc e os professores me obrigam a ler, vou a museus que voc escolhe, fao programas que voc acha legais,
dou satisfao em casa porque voc
acha certo. ser que no d para entender que, pelo menos na minha matrcula, eu queria ter um pouco de autonomia?
Que drama! Como voc  mal-agradecida, como  geniosa! Maria de Lourdes, que gnio ruim voc tem! Seus irmos so to meus
amigos, to fofos, to sem.
sem noo! No entendo como no se rebelam contra essa sua mania de querer mandar e desmandar na nossa vida. Tambm voc no
enche o saco de nenhum dos dois como
enche o meu!
Fao tudo para te ajudar, para te tornar uma pessoa melhor.
Como  que o Francs vai me tornar uma pessoa melhor? Por enquanto o Francs s me deixou injuriada, irritada, chocada, pau da
vida. Custava ligar para perguntar?
Custava. Interurbano custa dinheiro. E eu no achei que voc fosse reagir dessa maneira estpida. Nunca mais fao nada para
voc.
Jura? Muito obrigada!
De nada, filha. No precisa agradecer agora. Quando voc viajar para Paris e conseguir se virar sozinha, a, sim, voc vai me
agradecer.
Pariz, me? Eu no quero Paris! Eu quero ir para a Disney! Disney!
15 ANOS.
Na Disney.
Convenci meu pai de que o melhor presente que ele poderia me dar de aniversrio era uma viagem  Disney. Nada difcil, foi s
mostrar, que, na ponta do lpis, viajar
sairia bem mais barato do que a festa estilo anos 50 que ele e minha me, ela, principalmente, tinham planejado pra mim.
A minha inteno, obviamente, era ir sozinha, numa excurso com gente da minha idade, para conhecer pessoas, fazer novos amigos,
beijar algumas bocas, essas
coisas. Mas meu pedido foi ridicularizado e veementemente negado por meus progenitores.
Como o chefe do meu pai no cedeu aos seus apelos e no lhe deu mesmo uma semana de folga, ele decidiu: ficaria no Rio com meus
irmos e me despacharia para Orlando
com a minha me.
Imediatamente, comeou a discusso. Ela queria porque queria incluir Miami na viagem, eu nem cogitava conhecer outro lugar que
no os parques de Orlando.
Miami merece uma visita,  uma cidade to linda, to chique. o que custa passar dois dias na capital da Flrida?
Dois dias? Nem pensar, me! So s quatro dias de viagem, lembra? E voc praticamente conhece Miami, j que Miami  a Barra.
s que, pelas fotos,  uma Barra em
tom pastel! espetei.
Ento! Linda! A Barra  linda!
A Barra  horrenda.
Vamos para Miami! Eu quero andar de barco e conhecer as manses de ricos e famosos.
Ui!
Juro que estou fazendo fora, mas no consigo nem pensar num programa mais chato e tedioso do que esse reagi. Espera a.
 a manso do Julio Iglesias que
voc quer ver, no ? Confessa, me, voc ainda nutre uma paixo platnica pelo Julio Iglesias? Que coisa cada e ultrapassada
gostar do estilo latino sedutor daquele
cara. tsc, tsc, tsc. disse que tinha parado com essa obsesso julioilgesiana. tsc, tsc, tsc.
Eu parei! Mas o que tem de mal em querer conhecer a casa dele? vai que a gente esbarra com o Julio Iglesias em Miami, j
pensou que delcia?
Que delrio! E que lstima viajar e esbarrar com o Julio Iglesias. No podia ser com o Jon Bon Jovi que tambm tem casa l?
Uma breve discusso intil entre ns duas se seguiu e logo depois batemos o martelo: Orlando ganhou. Era l, s l, que iramos
passar os quatro dias de viagem.
Afinal, o aniversrio era meu, o presente era meu, a viagem era minha, ela era uma intrusa. Mas nenhum desses argumentos a
convenceram. Minha me me obrigou a decidir
no par ou mpar.
Ainda bem que ganhei! Mas no precisa ficar triste, na prxima viagem voc vai com o papai para Miami, t?
Na prxima vida, voc quer dizer. Seu pai no suporta viajar. Gosta  de ficar em casa, alisando aquela barriga imensa, com
uma cerveja do lado e a tev ligada
no canal de esportes.
Quer coisa melhor que isso? Viajar para qu? implicou ele, alisando a barriga, com uma cerveja do lado e a tev ligada no
canal de esportes.
Depois de presenciar este pequeno atrito, convidei minha me para viajar na nossa viagem. Afinal, viagem  que nem festa, comea
nos preparativos. Ela topou e, em
pouco tempo, estvamos felizes da vida, com a mente longe, pensando e planejando nossos dias nos Estados Unidos.
Fomos por conta prpria, sem excurso. Um amigo do meu pai conseguiu um descontao nas passagens areas. J no avio, vi que
teria problemas. s cinco da manh,
horrio de Braslia, seis horas de vo depois, acordo com uma porrada no brao.
Voc, hein, Maria de Lourdes? Voc no  mole, no!
Fala baixo, me, est todo mundo dormindo! sussurrei, enquanto enxugava a baba. Voc me acordou pra dizer isso?
Foi. Para dizer isso e para dizer que no estou com nenhuma inveja por voc estar dormindo ininterruptamente h quatro horas e
cinqenta e sete minutos.
Eu no tenho culpa se voc no consegue dormir em avio. disse, grogue de sono e ainda sem acreditar naquela falta de
noo.
Nunca vi um negcio desses! Voc olha para uma aeromoa e, pimba! dorme. Comissrios de bordo te do sono! Quer coisa mais
irritante?
O melhor a fazer num avio  dormir, me. O tempo passa voando.
pois , deve ser timo mesmo. Eu  que sofro, fico sem ningum para conversar. E sabe o que  pior? Olhar para o lado e ver
voc dormir profundamente nessa poltrona
de classe econmica, desconfortvel, pequena e nada reclinvel. Como voc consegue essa proeza, Maria de Lourdes? Hein? Hein?
 s relaxar.
Voc est relaxando desde que entramos neste avio. Dormiu antes do jantar, acordou para comer e voltou a dormir. Parece que
faz de propsito, s para implicar
comigo.
Voc ainda est falando. no acredito. boa noite, me comentei, com um olho fechado e outro aberto.
E ainda  egosta! , menina egosta! Nem fazer companhia para a sua me voc vai?
Claro que no. Arruma uma coisa para se distrair. Ouve uma msica, l uma revista, mas no me inclua na sua insnia,
por favor! Eu quero dormir! Preciso voltar
a sonhar o sonho bom que eu estava sonhando.
Sonhei que estava dando umas bitocas no Ceso, meu professor de Geometria. Nem tenho paixo platnica por ele nem nada, mas no
meu sonho Ceso beijava bem  bea
e minha me atrapalhou no momento mais gostoso, quando nosso beijo estava completamente entrosado e encaixado e a coisa comeava
a esquentar.
Pacincia.
Chegamos em Orlando e ela criticou tudo no hotel.
Em Miami, a qualidade da roupa de cama deve ser muito melhor.
Fala srio, me! Eu no estou nem a para a roupa de cama!
Mal entramos no trem que leva ao Magic Kingdom, o parque principal do complexo Disney, minha me comeou a me irritar.
fez amisade com um grupo de brasileiros.
Que como todos os brasileiros em viagem era muito empolgados.
Quando chegamos ao parque, ela grudou nos tais brasileiros, umas dezessete pessoas, e deu a entender que passaria o resto do
dia, ou da vida, tamanho o entrosamento,
colada neles.
Me! Se voc acha que vou ficar o dia inteiro com essa gente que eu nem conheo est muito equivocada.
L vem voc com sua antipatia. Eles so brasileiros, Maria de Lourdes!
Oh! debochei. Voc sabia que nasce brasileiro todo dia no Brasil? E que os nossos vizinhos so brasileiros e que todas as
pessoas que vemos na rua so brasileiras?
Por que tanta felicidade s por encontrar brasileiros, me?
Ih, que garota chata!  que, alm de brasileiros, nossos novos amigos so de Minas e ns amamos sotaque mineiro.
Ns no amamos sotaque mineiro. E eles no so nossos amigos, so seus amigos. Odeio quando voc resolve falar na primeira
pessoa do plural, me, pode parar com
isso. O que eu no entendo  o excesso de simpatia. Voc puxaria conversa com um desconhecido num nibus, no Rio?
No, claro que no.
Ento por que fazer isso aqui?
Vai que a gente faz amizade com eles, Maria de Lourdes! No ia ser bacana?
No!
Como no? Eles so de Minas, mas esto sempre no Rio. Temos grandes chances de engatar uma amizade, so muitas as afinidades.
Descobrimos, por exemplo, que a prima
da cunhada do Oswaldinho, a Marlene, mora duas ruas atrs da sua av. Olha que maravilha.
Oswaldinho? Quem  Oswaldinho, me? Que intimidade  essa? Voc acabou de conhecer essas pessoas!
Ah, o Oswaldinho. o Oswaldinho  uma figura, Maria de Lourdes. Ele est na fila para comprar os nossos ingressos.  o
piadista, pagodeiro de fim de semana, faz
uma imitao tima do Martinho da Vila,  dono de oficina mecnica. e  sempre bom ter um mecnico de confiana, voc sabe.
Em Minas? A algumas centenas de quilmetros da nossa casa? Claro.
Voc s est de implicncia porque no conhece o Oswaldinho. Ele  filho da dona Nen, aquela senhora ali, que  uma simpatia.
Dona Nen! Venha c, querida, minha
filha quer conhecer a senhora!
Eu no quero conhecer ningum!
Quieta! No vai fazer desfeita para a Dona Nen, ela  uma senhora.
Tragdia. Tragdia, tragdia, tragdia! No tenho outra palavra para definir essa viagem. Tambm, o que eu queria? Viajar com a
me s podia dar em tragdia!
Cinco brinquedos para agradar as crianas dos brasileiros depois, fomos a uma loja. Entre bichos de pelcia, produtos Disney,
roupas Disney, vendedores Disney, pessoas
Disney e chapus de Mickey, alis, minha me no sossegou enquanto no comprou um, inacreditvel! ns nos perdemos dos novos
amigos. Eu fiquei felicssima. Mame,
arrasada. Mas sua tristeza logo deu lugar a um sorriso.
Olha l o Tio Patinhas, Maria de Lourdes! Que legal! Vamos l! Vamos j! Mame tira uma foto sua com ele!
Mame surtou. Mame no podia estar em estado normal. Por que mame estava to animada com a presena do Tio Patinhas?
Pra qu? quis saber, indignada.
Para todo mundo ver que voc veio  Disney e tirou uma foto com o Tio Patinhas, ora.
Eu no tenho oito anos, me. E nem gosto do Tio Patinhas.
Ah, que bobagem, Maria de Lourdes. O Tio Patinhas  timo.
Eu no acho. Eu no gosto do Tio Patinhas.  cheio da grana mas  po-duro.
Ele  econmico.
O Tio Patinhas? Ah! O Tio Patinhas  a sovinice em pessoa, me!
Voc no pode julgar o Tio Patinhas assim, minha filha.
Claro que posso! Todo mundo em Patpolis sabe que o Tio Patinhas  um unha-de-fome. Prefiro o Pato Donald.
O Pato Donald? No diga sandices, minha filha! O Pato Donald  um antiptico. Sempre irritado, impaciente, reclama da vida,
da Margarida, reclama de tudo. Alis,
nem como aquele ali arranjou namorada.
Porque ele  autntico e engraado. J o Tio Patinhas deve ser uma porcaria de pato, est sempre encalhado, no namora nunca.
ou ser que o Tio Patinhas  gay?
O Tio Patinhas no  nada disso, ele apenas no achou a pessoa certa ainda.
Eu gosto do Pato Donald e ponto final tentei encerrar aquele dilogo surreal.
T bem, t bem, ento vamos encontrar o Pato Donald por a. De repente at est com o Tio Patinhas, que  tio dele.
a a gente tira uma foto sua bem fofa com o
Pato Donald. E com o Tio Patinhas.
Eu no quero tirar foto com o Pato Donald, muito menos com o Tio Patinhas! No estou nem a para o Pato Donald e para o Tio
patinhas! Eu quero ir nos brinquedos!
estourei.
Expliquei que tnhamos pouco tempo de viagem e que precisvamos aproveitar ao mximo cada minuto fazendo o que eu, a
aniversariante, a razo por estarmos ali, estava
realmente a fim, e no tirando foto com dois caras vestidos de pato.
No fim do dia, estvamos cansadas de tanto andar de um lado para outro, e pagar alguns micos memorveis como nosso ingls
marracarrnico. Ah, sim! Tambm aproveitamos
o dia para brigar. Como discutimos! Ela queria porque queria levar um pesadssimo kit sinuca do Mickey, com 12 pesadssimas
bolas estampadas com a foto do camundongo
numa pesadssima caixa de madeira.
Ningum pede para uma amiga trazer um kit de sinuca de viagem, me! isso  praticamente um ba. E pesa uma tonelada!
Mas ela tomou conta de voc tantas vezes quando voc era menor.
H sculos! Diz que no tinha!
? Hum. t.
Caminhando rumo ao porto de sada, tirei a foto com o Tio Patinhas. Mas ela ficou to feliz que nem puxei outra briga. Os dias
seguintes foram divertidos. Eu cedendo
um pouco, minha me cedendo outro pouco e a viagem transformou-se em delcia no segundo dia.
Trs dias, 797 cachorros-quentes e 574 pequenas discusses depois, voltamos para o Rio. Foi um presento de aniversrio.
A parte mala da viagem ficou por conta da foto com o Tio Patinhas. Jamais teria tirado se soubesse que, aps o clique, minha me
decidiria fazer uma coleo de fotografias
com todo o elenco da Disney. Perdi a conta, mas acho que gastamos 36 poses s com os personagens. Os personagens e eu, claro.
Eu e Pateta, eu e Pato Donald, eu
e Mickey, eu e Minnie, eu e Pluto, eu e Z Carioca, eu e Branca de Neve.
No trono.
Se for a Alice, leva o telefone no banheiro. Mas s se for a Alice! Se for o Fred, por favor, pelo amor de deus, diz que
estou no banho, na academia, na acunputura,
no shopping, na dana do ventre, mas em hiptese alguma diga ou insinue o que eu estou realmente fazendo, t? Entendeu?
Quando eu estou de trelel com algum menino, principalmente em comeo de trelel, todo cuidado  pouco com minha me. Ela tem a
lngua enorme, do tamanho do Po
de Acar, e adora puxar conversa com todo mundo que me liga, s para se inteirar do que est acontecendo. Lembro bem de uma
vez quando ela atendeu o telefone,
eu estava no banheiro botando minha leitura em dia, folheando a Caras tranqilamente, e quase me enfiei na privada adentro ao
ouvi-la dizer para meu namorado de
duas semanas, duas semanas!
Ih, Dudu, sabe onde a Maria de Lourdes est? No trono! H um tempo! J avisei que qualquer dia vai aparecer com hemorrida!
ela senta na privada e esquece da
vida, menino!  impressionante! Nunca sei se ela est com dor de barriga, priso de ventre ou se est lendo. E voc, Dudu?
tambm tem problema de priso de ventre?
tem um supositrio que eu uso aqui em casa que  uma maravilha, tiro e queda!
Essa  minha me. Como a gente sofre com me, n? Elas so, sem dvida, tudo de bom na nossa vida, sem elas no estaramos
aqui, e coisa e tal, mas chega a hora
em que o inevitvel  constatado: depois que a gente faz 15 anos, ir ao cinema com elas, comprar roupas com elas, estar em
lugares pblicos com elas, as coisas que
a gente fazia at ontem na maior naturalidade viram o maior mico do mundo. E quando me pega a gente na escola? Uuui.
J lhe pedi 375 vezes para ficar na rua de trs, ela ignora e fica bem na porta do colgio, pisca-pisca ligado, buzina apertada,
Roberto Carlos nas alturas. Eu fao
o possvel para virar uma formiga e passar despercebida at o carro. Mas pensa que consigo? Ontem mesmo aconteceu uma cena que
prefiro esquecer. Quando eu ainda
me despedia das minhas amigas na porta da escola, ela anunciou a mais nova aquisio aos urros, aos berros:
Maria de Lourdes, u-uh! Achei aquele creme importado para espinha que voc vivia me pedindo! Uma fortuna, mas acho que agora
essas pipocas horrendas abandonam
sua cara de vez, filhota. Na fora, na f, upalel!
Upalel? Fala srio!
Mezinha, eu te amo, muito mesmo, mas a pior coisa do mundo  ver voc me tratar em pblico exatamente como fazia 10 anos
atrs. J, j chega a tal da maturidade
e a voltaremos a ser amigas do tipo unha e cutcula, t? Prometo.
Jantando com a vov.
Hoje de manh recebi um telefonema-intimao. Era minha av Dalva, indignada por saber por terceiros, leia-se meu pai, que
estou namorando. Tentei argumentar,
explicar que estamos engrenando, mas ela no deu trgua. Demonstrou profunda decepo por eu ainda no ter levado o Fred para
jantar no apartamento dela. Tive de
ceder. S pedi para minha me ir junto, para quebrar o gelo e me d uma fora.
Como ele  triatleta e tem uma alimentao acompanhada por nutricionista, toda balanceada, pedi, sem muita esperana, para
a vov fazer uma coisa leve, um peixe
grelhado e uma salada verde.
Chegamos, fizemos as devidas apresentaes, jogamos uma conversinha fora e, em quinze minutos, o jantar estava servido.
Podem vir, crianas, podem vir! anunciou ela, batendo palmas.
Quando vi a mesa, quase ca para trs.
V! Eu te falei para fazer uma comida LEVE!
Ah, mas como eu no sabia se ele gostaria s de peixe e salada, resolvi fazer umas coisinhas. Diga para ele que no precisa
comer tudo, embora todos os pratos
estejam divinos. O ideal seria que ele provasse um cadinho de cada comida.
Mas v, se a gente comer um pouquinho de casa prato vamos sair daqui rolando. Para que tanta coisa? Voc esperava mais gente?
Dona Dalva, a senhora exagerou! Isso aqui est parecendo um buf a quilo.  humanamente impossvel comer todos esses pratos.
Ah, ngela, l vem voc reclamar, como gosta de reclamar! Fiz s uns bifinhos,uma carne moda, uns pastis, feijo, arroz
pur de batata, batata frita, almndega,
quibe, peixe grelhado, empado de frango, piro e farofa. No sabia o que o rapaz gostava e preparei algumas pores.
 a primeira vez que ele vem aqui em casa,
queria trat-lo bem. Coma, queridinho, coma.
Fred, voc no precisa comer tudo, s o que tiver vontade, t? alertei.
Mas se comer no significa comer tudo, minha av fica ofendidssima.
Que s o que tiver vontade, o qu? Menino magro, franzino, fraco, abatido. olha aqui, que gostoso, Ded. Mmmm. Nham,
nham. me d seu prato.
Fred, v! corrigi.
Ningum merece! Como se no bastasse aquela comilana forada, minha av cismou que o Fred chamava Ded, que era o apelido de
um  dos meus primeiros namorados, que
ela amava, pois comia pra caramba.
Peixe, arroz, feijo, pur, estrogonofe. enumerava ela, enquanto tascava uma colherada cheia de cada coisa no prato do
pobre do Fred. Foi tudo to rpido que
no deu para cont-la. Eu olhava para a mame, mas ela tambm no podia fazer nada. Encabulado e sem jeito, Fred aceitava. Logo
ele, que odeia dormir com a barriga
cheia.
E vocs, ainda devem guardar lugar para a sobremesa, sim? Fiz p-de-moleque, paoca, brigadeiro, doce de leite,
bolo de banana e sorvete de nozes. Nozes sem casca,
hein? Passei a madrugada inteira descascando mais de 300 nozes. Mas valeu a pena, est tudo uma delcia. E ainda tem as frutas.
Melo, morango, manga, melancia,
pra, abacaxi, caqui, caj e tangerina. Lourdinha gosta de tangerina, no gosta?
Adoro, v.
Dona Dalva, assim a gente engorda.
timo,  esse o objetivo. Maria de Lourdes est esqueltica, precisa engordar, no mnimo, uns seis quilinhos.
Seis quilos, v! Por qu?
Voc est raqutica, parece doente. Ded, voc no acha que ela ficaria melhor com mais uns seis quilinhos?
Ded, quer dizer, Fred foi salvo pela comida. Estava com a boca cheia e mal conseguia responder. No que minha av estivesse
interessada na resposta. Ela continuava
a tagarelar do seu modo, sem pausar, sem parar para respirar.
Come tudo, menino! Quer que eu faa mais bife? Mais pastel? Vou fazer mais bife disse, levantando-se e dirigindo-se 
cozinha a passos rpidos.
No v, pra, por favor! Fica aqui com a gente pedi, inutilmente, j que ela, sempre gil e veloz, tinha ido para seu
habitate preferido, a cozinha.
Quando voltou, com mais uma bandeja de sei l o qu na mo.
Senta, v! Sossega um pouquinho!
No, no posso sentar! Tenho que preparar os potinhos de manteiga e sorvete vazios para vocs levarem o que sobrar.
Dona Dalva,  muita comida, ns nem temos espao na geladeira. E l em casa tem comida, tem empregada.
, mas comida de empregada no  comida de v. Vamos e venhamos, ngela Cristina, voc alimenta mal as crianas.
O qu? indignou-se minha me.
 sim, senhora. So todos magros, anmicos, os ossos do Mam esto todos aparecendo, Malena  uma criana esqueltica, sem
fora para nada. No meu tempo.
Ah, no, no comea com esse papo de no meu tempo, v! J basta a mame.
Saiba, ngela Cristina, que graas a mim o Armando  um rapaz muito saudvel.
Gordo, a senhora quer dizer, no ?
Fala srio, me, no vai querer brigar com a vov! Que feio! Ai, ai, ai! bronqueei.
Gordo, no! Meu filho  fofo. Esperem a que vou pegar os potes.
No precisa, dona Dalva.
Ah, que no precisa o qu? No quero saber, vo levar o sobrar, e acabou. Guarda na geladeira do vizinho. Leva pelo menos
empado, quibe, bife, o feijo e os pastis.
E voc, Ded? Vai levar o qu? Meu pastel fica uma delcia de um dia para o outro. De doce, vocs podem levar o p-de-moleque,
o brigadeiro, e o bolo de banana que
Maria de Lourdes adora. Tem tambm gelia de caj. Voc precisa experimentar a gelia de caj, Maria de Lourdes.
Mas eu no gosto de caj!
No gosta de caj? Que no gosta, o qu? Caj  timo. Voc no est confundindo caj com jaca? Jaca  muito doce, j caj.
 uma delcia, tem um azedinho que.
nossa! Bom demais. Seu pai adora. Vou pegar para voc levar.
Gelia de jacaj? espantou-se Fred.
No! Gelia de Jaca! Ou seria de caj? confundi-me.
Minha av voltou com um pote transbordando de gelia. De caj. Na tampa, um bilhete colado dizia Para comer com sorvete.
Mas v, assim eu vou engordar e o Fred no vai querer nada comigo.
Ela ignorou completamente.
E planta, ngela? Voc no quer levar essa samambaia? Est to bonita, pode botar na sala, ou na varandinha, vai ficar lindo.
A casa de vocs  to sem graa sem
planta. Planta d vida. Ded gosta de planta? Tenho uma muda de. come mais, , Ded. Come mais, pode comer sem cerimnia.
quer que eu faa mais farofa?
Pelo amor de Deus, dona Dalva, no faa isso. O menino  atleta, todo preocupado com alimentao.
Mas um p-de-moleque, um sorvetinho e uma laranja ele vai querer, no ? No vai fazer essa desfeita. A laranja est um
espetculo, bem doce. Atleta precisa comer,
precisa ser forte.
Como sim, senhora disse Fred, suando bicas de tanto botar comida para dentro, todo envergonhado e sem jeito.
Ah, timo. Ento vou trazer o restinho da mousse de chocolate que est na geladeira desde domingo. Est uma maravilha,
modstia  parte. Enquanto isso, olha a
laranja, Ded, no vai deixar de comer essa maravilhosa e estupenda laranja!
Ela desapareceu cozinha adentro. Em poucos segundos estava de volta. Falando.
Essa toalha de mesa vocs tambm podem levar.  linda, comprei em Portugal. Pode levar, ngela.
Obrigada, dona Dalva, no precisa. Ns estamos com um bom estoque de toalhas de mesa l em casa.
Ela sequer ouviu minha me.
Quer suco de caju? Tem suco de caju e de caj. No  de saquinho, no!  fruta de verdade. Eu que fiz. Quer um pouquinho,
ded? E a laranja, j chupou? Que menino
demorado! Chupa a laranja, Ded! J descasquei e parti em pedaos, s precisa chupar disse ela, enquanto botava sem muita
delicadeza um pote lotado de laranja
na frente dele.
V! Coitado!
Suando mais ainda, Fred finalmente tomou coragem para dizer um no, muito obrigada.
Mas foi interrompido sem d nem piedade por minha av, que levantou-se, deu-lhe as costas e foi apanhar o suco de caj - e o de
caju. Com a rapidez e a habilidade
de sempre, ps um sabor em cada copo e os dois copos na frente do Fred.
Experimente e me diga, com sinceridade, qual voc acha melhor pediu. Mas tambm tem gua e mate na geladeira. Quer?
Depois que finalmente encerramos o jantar, veio a hora do caf.
Quem quer cafezinho? Tem caf com leite, caf com creme que eu mesma fiz, cappuccino.
Eu no quis caf. O Fred no quis caf. S minha me quis caf.
Por qu? Por que as crianas no querem caf? perguntou ela, triste de dar d.
Por qu? No tem porqu, dona Dalva! Eles simplesmente no querem, no tm costume defendeu minha me.
Que desgosto! Que desiluso! Que tristeza! dramatizou vov.
Finalmente conseguimos levantar da mesa. E comeou a briga das sacolas. Minha av queria que levssemos para casa oito, cheias
de potinhos com sobras de comida.
Conseguimos negociar e ficamos s com quatro. Duas para mim e para minha me, duas para o Fred.
No elevador, uma pergunta de Fred Ded me deixou com a pulga atrs da orelha.
Simptica a sua av. Voc vem sempre visit-la?
Claro, sou louca por ela.
Dois dias depois, nosso namoro acabou. Minha me fez o diagnstico: trmino causado por indigesto.
Viajando com o namorado.
Logo depois que terminei com o Fred conheci o fofito, apotetico e saradinho Tho. Nosso trelel est durando, j estamos
juntos h quatro meses, um recorde. Hoje,
depois da aula, o lindo me perguntou se eu quero viajar com ele para Bzios. Claro que quero! que pergunta. S tem um nico
probleminhazinho: falar com a minha
me.
De jeito nenhum! Imagina, voc mal conhece o garoto.
Uuups! No comeamos bem o dilogo.
Como assim, me? Ns j estamos juntos h quatro meses!
Quando vocs completarem quatro anos talvez eu deixe os dois pombinhos viajarem, mas agora, nem pensar! Como voc mesma
diria: que viagem, Maria de Lourdes!
Por qu?
Porque eu no vou com a cara da me dele. Arrogante, metida a besta, nariz em p. perua.
Alou! Eu no namoro a me dele.
Ai, est bem, voc pediu, Maria de Lourdes. Eu no gosto desse garoto.
O qu? No gosta por qu? O que foi que ele te fez?
O cabelo dele  ensebado, tem aspecto de sujo.
Que nojo, me!
Tambm acho. Voc podia falar para ele lavar a cabea com um xampu mais.
Pausa! Voc no pode achar normal no gostar de uma pessoa porque ela tem o cabelo ensebado.
Claro que existem outros motivos, no , Maria de Lourdes?
Ah, ? Ah, ? Quais so?
Um: no gosto do cheiro do chiclete que ele vive mascando. Dois: o tnis branco dele parece que foi para a guerra, de to
sujo e detonado. Terceiro e principal
motivo: ele no  bom em Matemtica, ou seja, nem ajudar voc nos estudos o cara pode.  praticamente um zero  esquerda esse
tho.
        Eu no acredito no que acabei de ouvir. E o carter dele? E o carinho dele comigo? No contam?
Ah, sim. Ele  um bom menino, parece ser direitinho, acho at que gosta de voc. Mas vocs dois, juntos, numa viagem?
em plena adolescncia? Com os hormnios em
ebulio? No mesmo! Voc  muito nova para viajar com o namorado. Que idia mais descabida!
Mas os pais deles vo.
E da? Eles no esto nem a pra voc, Maria de Lourdes. So pais de menino. E menino  diferente de menina, minha filha.
Por qu? Que coisa mais machista! Que injustia! Nunca entendi por que o Mam, que  mais novo do que eu, tem muito mais
liberdade aqui dentro de casa. Por que
ele pode chegar s duas da manh e eu s s quinze para uma?
Seu irmo  homem,  diferente!
Homem? Ele  um pirralho! Saiba que a Alice, que  filha nica, pode chegar em casa s cinco? Cinco da manh! Tudo bem que se
ela chega s cinco e d um problemo,
mas quem liga? Isso que  me, o resto  amostra grtis.
Voc  muito mal-agradecida mesmo, no? A Alice  uma largada, v se isso  hora de uma moa direita chegar em casa!
Deixa, me, por favor! Eu sei me cuidar, se rolar alguma coisa, eu juro, vou me proteger.
Nesse momento, minha me arregalou os olhos, estalou as juntas dos dedos, comeou a olhar para todas as paredes, para todos os
mveis.
que no fosse a minha ppila.
Proteger de frio? Mas em Bzios no faz frio nessa poca do ano.
Me, eu estou falando de camisinha.
H? O qu?
No disfara, t? Uma hora a gente vai ter que falar de sexo. Voc precisa acabar com esse bloqueio. Eu no sou mais criana.
Mas eu no quero que sua primeira vez seja com um ensebado.
Me, a primeira vez  minha e eu decido com quem vai ser. Mas no precisa ficar preocupada por antecipao, acho que no vai
rolar nada, eu no me sinto preparada.
Oh-Oh! Meus argumentos maduros e coerentes pareceram balanar as convices maternais. Pela sua fisionomia indicavam eu ganharia
aquela parada fcil, fcil.
E ento? Bzios, semana que vem?
Nem pensar, fora de cogitao. Mas vamos amanh mesmo ao ginecologista. Se voc acha que o namoro com o oleoso pode engrenar,
melhor ir ao mdico logo.
Que fofa! Nem acredito que isso saiu da boca da minha me. Quer me levar ao ginecologista, quer lidar melhor com o assunto sexo.
Que evoluo! Palmas para ela!
Porque se voc engravidar eu corto os pulsos!
O qu? reagi, indignada com o comentrio. Perdeu uma grande chance de ficar calada, me! Como pde dizer uma bobagem
dessas?
No venha querer me dar lio de filha metida a moderninha. No estou nada preparada para ser av to nova. No mesmo!
s de pensar entro em pnico! Ser av e
me de me solteira ao mesmo tempo  o fim! Sem contar os vizinhos, o que eles vo pensar?
Eu sou virgem, me! Virgem! Acabei de dizer que quero me manter virgem por mais um tempo. Que saco! Parece que no ouve o que
eu digo!
Fiquei to chocada que deixei a chatona sozinha. Eu, hein! Acho que ela precisa trocar de analista urgentemente. Essa que ela
vai h anos no serve para nada. Humpf!
16 ANOS.
Na estrada.
Eu j estava devidamente sentada na minha poltrona com a Alice, a Cacau, a Babi e a Nanda. O Chico, o Renato e o Giba tinham ido
comer alguma besteira. Minha me
entrou e saiu do nibus umas 23 vezes, no mnimo. E faltavam ainda uns quinze minutos para a viagem.
Fiquei feliz por ter convencido a minha me de que no teria problema nenhum viajar sozinha com meus amigos. E olha que s levei
trs semanas para domar a fera.
Me, eu tenho 16 anos, qual  o problema?
 esse o problema. Voc s tem 16 anos. Uma criana.
Desde quando quem tem 16 anos  criana?
Para mim voc sempre ser uma criana.
Ah, agora sim. Com esse poo de coerncia fica fcil argumentar.
No deboche, Maria de Lourdes, odeio deboche. Olha que eu no deixo voc ir.
E ainda me ameaa? QUE MUNDO INJUSTO!
Menos, Maria de Lourdes, menos. Sem drama.
A me de todo mundo j deixou. S falta voc.
No sei, filha, no sei. Por que vocs no passam o carnaval aqui no Rio?  divertido. Eu levo vocs para ver as escolas na
avenida, para ir  praia comigo e
seus irmos.
Ir  praia com a famlia? Que programa yanomami! To fora! No mesmo! Quero ir viajar com os meus amigos.
Esses amigos que eu no gosto, n? Parece que voc escolhe a dedo: Esse a minha me vai detestar. Ento  dele que vou ser
amiga para toda a vida. Pensa que
eu no percebo?
Me, eu sabia que voc implicava com a Alice e, por um motivo to idiota, que j esqueci. Mas o que  que tem de errado com a
Nanda?
No gosto do jeito que ela se veste. Aqueles microshortinhos, aqueles tops, aquela perna de jogador de futebol sempre de fora,
aquele cabelo louro de farmcia.
parece que a menina no tem me. Ser que ningum na casa dela sabe que na rua a gente anda com roupa?
Arr, sem comentrios. E a Cacau?
Tem o cabelo muito grande, por que  que essa menina no corta o cabelo?
Porque ela gosta de cabelo grande, bem comprido. E, assim como a Nanda, ignora a opinio alheia. E a Babi?
No vou com a cara dessa menina,  menina enjoada, fresca.
Caraca, me, como voc julga as pessoas, cara! Que feio!
Olha o respeito!
Olha o respeito voc! Minhas amigas so minha famlia e elas so muito importantes para mim. Se voc se dignasse a conhec-las,
veria que so uns amores.
Mame ignorou, claro, e emendou:
E ainda vai com um monte de surfistas. Onde foi que eu errei?
O que  que tm os surfistas?
Surfista  tudo desocupado, eles no querem nada com a vida, s querem saber de onda.
Ai, me, voc me irrita com esses seus pr-conceitos!
Foi difcil, mas depois de 17 verses - com pequenas modificaes - da discusso acima, consegui convenc-la. A me da Nanda, a
ousado e minsculo, entrou no circuito
para dar uma fora. Ligou l para casa, insistiu, disse que a Nanda j viajava sozinha desde os 13 e que no teria problema, o
que levou minha me a comentar, assim
que desligou: No falei que essa menina era uma solta? No falei?
No nibus ela entrou tantas vezes que parecia que eu partiria para o corao da frica para passar um ano, numa misso
importante e perigosa. Mas que nada! Eu ia
apenas aproveitar os quatro dias de folia em Floripa. Minha me deixou claro para todos os 40 passageiros que era a primeira vez
que eu viajava sozinha.
Est levando o remdio de nariz, Maria de Lourdes?
Estou, voc acabou de me perguntar isso.
E repelente?
Tambm. Isso voc perguntou sete vezes.
Ferro de passar porttil?
Aqui.
Secador de cabelo?
Shhhh! Fala baixo, no quero que o mundo inteiro saiba que eu fao escova.
Esparadrapo?
Sim.
Gaze?
Tambm.
Mertiolate?
Na bolsa.
Lixa de unha?
Junto com os esmaltes.
Tira-manchas?
Tambm.
Porta-incenso?
Sim.
Extintor?
Me!
Eu me preocupo com voc, Maria de Lourdes.
Mas Florianpolis  logo ali.
Logo ali uma vrgula.
Nesse momento, minha me no se conteve e passou dos limites. Para meu desespero, batendo palmas e assobiando, protagonizou uma
cena inesquecvel.
Um pouquinho de ateno, senhoras e senhores, s um minutinho.
Como o burburinho em volta no cessava, ela apelou para o volume e gritou o quanto pde:
UM MINUTINHO DE SUA ATENO, POR FAVOR! EU S QUERO PEDIR UMA AMIGA PARA VOCS!
No, me, no faz isso, no! implorei.
No  um assalto, senhoras e senhores, no vou pedir dinheiro, no vou pedir esmola, o que eu tenho para pedir  carinho. Peo
que vocs tenham carinho por esta
menina, a Maria de Lourdes, o tempo que vo passar com ela. Levante-se, filha, para todos conhecerem seu rostinho.
Que levantar, o qu? Pela mor de Deus, me!
Ela me ignorou solenemente e, como se ainda no estivesse claro, continuou:
Eu sou uma me preocupada, que zela por seus filhos.  a primeira vez que esta menina frgil, franzina, pequena, que at outro
dia fazia xixi e coc na fralda,
est viajando sozinha.
Chega, me, chega!
Ignorando-me mais uma vez, ela seguiu em frente no seu apelo:
Sei que existem mes aqui que iro me entender. Gostaria de pedir que vocs olhassem por ela e velassem seu sono, se no for
pedir demais.
Nesse momento, o motorista entrou, seguido por Giba, o Chico e o Renato. Os quatro pararam para ouvir o discurso.
Ela est tomando um remdio para gripe, mas sempre esquece. Se algum puder lembr-la de que oito da noite  a hora do remdio,
serei eternamente grata.
Eu ouvia aquela enxurrada de palavras que saram da boca da minha me estarrecida, irritada, afundada, derrotada na poltrona.
minhas amigas, mui amigas, no paravam
de rir. Os meninos, em p assistindo a tudo, tambm divertiam-se e no tiravam os olhos do mico do ano.
No mais, se voc sentir saudade de casa. telefone, Maria de Lourdes. Saudade no  mico, saudade no  pecado, saudade  um
sentimento muito nobre. No , gente?
perguntou, dirigindo-se  platia, ou melhor, aos passageiros. Ligue quantas vezes quiser, menos na hora da novela. E a
cobrar se for necessrio. No, a cobrar
no precisa,  exagero.
Minha senhora, ns temos de partir alertou o motorista.
Virando-se para ele, minha me lanou seu olhar de filhote de cachorro e continuou a ladainha:
Seria demais eu pedir para o senhor ficar com o meu telefone e ligar para mim a cada parada? Assim vou ficar mais calma, essa
menina  muito esquecida disse
ela, enquanto dava seu carto de visita para o motorista, um senhor que trazia o mau humor no semblante e j estava perdendo a
pacincia com tanto zelo materno.
Minha senhora, temos de ir.
Ai, Deus! J?
J, me! Pode ir agora, e obrigada por me matar de vergonha.
Mal-agradecida, isso se chama amor. Se suas amigas no tem isso vo morrer de inveja, porque voc tem carinho e tem me, Maria
de Lourdes. Me ativa, me que sabe
das coisas.
Ta bem, tchau.
Tchau, minha filhinha. despediu-se, chorosa. E j sabe. no pegue carona, no cheire cocana, no fume maconha, no
tome nada alcolico, no fume e no
beba nada que te oferecerem. Tambm no deixe seu copo dando sopa, pode vir algum e botar alguma coisa na sua bebida.
Minha senhora, temos um horrio a cumprir.
Est bem, j vou! S mais uma coisa: no esquea de botar o tnis do chul na varanda, para no incomodar seus amigos. Lave as
mos antes das refeies, escove
os dentes antes de dormir e deixe as calcinhas secarem por completo antes de voltar a us-las, para no ter problema com
infeco ou algo do gnero.
Fala srio, me! explodi, com os olhos esbugalhados, as veias saltando.
Minha senhora! Ela entendeu tudo! exaltou-se o motorista.
E pap direitinho, hein? Se no for pap de verdade, carninha, arroz, fezozinho, pode ser sandusse, leitinho com socolate
totoso, barrinha de celeal.
Fala direito, me! Por que voc est falando assim na frente dos meus amigos e de mais 40 estranhos? Enlouqueceu?
Por que vox  minha quianxa.
Me!
Minha senhora! Me desculpe, mas de quianxa sua filha no tem nada, ela j est bem crexidinha estourou o debochado do motorista.
O senhor  um intrometido, sabia?
Tia, ta beleza, fica tranqs! A gente cuida da Maluzinha disse Chico, com quem minha me mais implicava, por conta dos dreads
que ele tem no cabelo.
E da pap para ela na hora xerta, amigo  prexas coijas completou a sem graa da Nanda.
Ah, timo. Agora, sim, eu vou para casa bem tranqila ironizou ela, antes de me dar o nonagsimo quinto beijo daquela manh.
Aps mais algumas despedidas, ela finalmente partiu. Ufa! Achei que meu martrio tinha acabado, mas era s o comeo. Nas 18
horas seguintes, um grupo de garotos
metido a engraadinho passou a viagem inteira fazendo piadinhas do tipo: Maria de Lourdes, olha o chul, Maria de Lourdes,
voc tomou o remdio? E o tira-manchas?
O que seria de voc sem o tira-manchas?
Na troca de motoristas, o que entrou ficou sabendo de mim pelo colega, que disse, bem, alto:
, Romeu, aquela ali  a Maria de Lourdes. Ela  uma quianxa muito pequenininha e frgil,  a primeira vez que viaja sozinha e
tem um chul que Deus me livre!
E no esquea que daqui a pouco est chegando a hora do remdio dela! ainda gritou um passageiro debochado l de trs,
fazendo o nibus inteiro cair na gargalhada.
Ser que existe alguma forma de uma filha mandar a me passar alguns anos na China? Preciso pesquisar esse assunto urgentemente.
A separao.
Os primeiros sintomas de que o amor deles ia mal das pernas apareceram quando eu tinha uns 13 anos. Cada um num cmodo da casa,
cada qual com uma opinio diferente
da do outro, s para irritar, um esperando o momento certo para espetar o outro. tudo passou a ser motivo de briga, de
discusso, e cada discusso tinha mais decibis
do que a anterior. Resumindo, o que era calmo virou pororoca, assim, num estalar de dedos. E o casamento dos meus pais no teve
outro jeito a no ser o divrcio.
Eles nos deram a notcia oficialmente ontem, mas eu e meus irmos j sabamos h tempos que mais cedo ou mais tarde esse dia
chegaria. Sim, confesso que ouvamos
algumas brigas atrs da porta, inclusive a derradeira, com o corao na mo. Decidiram que ns ficaramos aqui com a mame e ele
vai para casa da vov at achar
um apartamento para alugar. A conversa foi tensa, emocionada, doda.
Mame pareceu bem mais abalada do que ele com a separao. Os dois choraram juntos, abraaram-se e nos abraaram forte pela
ltima vez como casal. Mostraram para
gente que a amizade entre eles continua intacta, e claro que no faltou aquele papo clich de que amam a gente, que ns somos as
coisas mais importantes do mundo
e coisa e tal. Antes de enxugar as lgrimas, papai levantou-se e partiu, numa rapidez desconcertante.
Depois que bateu a porta, ficamos na sala com cara de bobos, sem saber o que dizer, como agir, onde botar as mos, onde pousar o
olhar. Ao mesmo tempo que tnhamos
de lidar com a dor de nossa me, que era imensa, precisvamos resolver a nossa, que latejava como o qu. Deu um vazio, um
negcio esquisito no peito. Mas claro
que quero, do fundo do corao, que eles encontrem pessoas bem bacanas e sejam felizes para sempre de novo. Tudo que consegui
dizer para minha mezona nesse momento.
dureza foi:
Vai passar, me. Prometo. E pode contar comigo para o que precisar.
Obrigada, filhota. Vou mesmo precisar de vocs. Muito.
Depois da separao.
Hoje faz um ms que o papai foi embora. Ele j alugou um apartamento e assumiu uma namorada, Patrcia, que mame prometeu odiar
e chamar de Madame Silicone para
todo o sempre, dramtica? Ela? Imagina. Para coroar, foi promovido a editor-chefe da revista esportiva em que trabalha h mais
de sete anos.
Cheguei do colgio e peguei mame na cozinha preparando o almoo. Enquanto cozinhava, ela resmungava profissionalmente.
Ex-marido  tudo igual, basta se separar da gente que um ms depois enriquece.  promovido, passa a comprar roupas de grife,
janta nos melhores restaurantes, arruma
uma namoradinha boazuda, uma felicidade de dar inveja.  s pedir o divrcio que a vida deles deslancha.
, me, o papai mereceu a promoo, est a um tempo na revista. E quem disse que a Patrcia  boazuda?
No defenda seu pai, Maria de Lourdes. Preciso falar mal dele, se no quiser ouvir v l para dentro.
Entendi. Quer dizer, acho que entendi. Virei as costas para ir para o quarto, mas ela continuou. Precisava mesmo falar. E eu
fiquei mal de no parar para escutar.
Senti que ela queria um ouvido companhia. Resolvi ceder o meu com uma condio: prometi a mim mesma que no prestaria muita
ateno nas reclamaes e que no atentaria
para o fato de que o homem crucificado em questo era meu pai.
No meu tempo, eu tinha de economizar no telefone, no podia ter bab nem empregada, s usava copo de requeijo e comprava
xampu barato. Agora o barril de chope
me liga e diz na maior cara-de-pau que vai passar o fim de semana em Angra. Ah, faa-me o favor! Passeio em Angra, comigo, era
dormir em casa de pescador e, no mximo,
andar no bote inflvel do amigo do primo dele. E no tinha motor, no, era a remo! Rema, ngela Cristina! Fora, ngela Cristina!
Aproveite para malhar esse brao
gordo, ngela Cristina! Era timo.
Me.
Que ? No meu tempo, frias era isso, minha filha.  bom voc saber, assim conhece logo a alma masculina.
Sei que  duro, mezinha, mas o amor de vocs acabou.
Pois , tambm acho. Ento por que o Armando quer vir aqui com uma proposta de emprego? Proposta de emprego  o c.
Olha a boca, me! Palavro no entra aqui em casa, lembra?
Ih, Maria de Lourdes, voc est chata.
Ouve o que ele tem a dizer.
O idiota acha que eu quero esmola dele. Estou bem com meus clientes de assessoria de imprensa, ganho muito bem com eles.
Ele s quer te ajudar, me.
No quero ajuda de ningum! O que eu quero do Armando, agora que ele est com uma situao financeira um pouco melhor,  que
ele d mais presentes para vocs.
Me, o papai sempre nos deu presentes. E que bom que ele est rico, no deveramos estar felizes com isso?
Desculpe, filha, mas voc  uma equivocada. Seu pai no est rico. Est com um emprego melhor, o que no  sinnimo de
riqueza.
Mas est namorando, e acho que  isso o que voc tinha de fazer para parar de resmungar.
S quero ver at quando vai durar esse namoro. Ouvi dizer que ela tem 20 anos, trs lipos, duas aplicaes de botox e 300 mili
litros de silicone em cada peito.
Me, assim no d para conversar com voc repreendi, para logo depois cair em tentao 300? Tem certeza? Caraca, quer
dizer que o papai est namorando dois
meles?
Pois . Enquanto isso, meu peito cai, minha bunda cai, minha pele cai, meu rosto enruga, tudo murcha, tudo balana. A natureza
no  nada bacana com a mulher,
minha filha, aprenda isso tambm desde j para no sofrer no futuro.
Voc no est nada cada, me, que exagero! Ta lindona!
Eu estou o oposto de lindona, Maria de Lourdes! Difcil entender isso?
Xi. ela estava atacadrrima.
Sabe o que  pior? continuou. Comparar os nmeros da Madame Silicone com os meus. Ela, um par de peitos e um namorado novo.
Eu, trs filhos, um ex-marido,
40 anos e um carro que s um museu compraria. Meus nmeros mensais? Supermercado duas vezes, trs reunies de pais, 180 deveres
de casa, 360 refeies, 40 quilos
de roupa lavada e passada e oito faxinas completas! Isso l  vida?
No resisti e soltei uma gargalhada. Minha me fica engraada quando est de mau humor. Mas acho que ela no gostou.
Est rindo de qu? Tem algum palhao aqui?
Me, eu s quero que voc se acalme pedi.
Como  que vou me acalmar vendo seu pai de carro importado? No tenho pacincia de ver seu pai, aquele bolo fofo calvo e zero
charme, andando de carro importado.
O que  que tem? Bacana, conseguiu com o trabalho dele.
Bacana nada!  de segunda mo, e pagou em mil prestaes, Maria de Lourdes! S para se exibir para os outros.
Isso no  a cara do papai.
No ? Claro que , ele s comprou carro para passear com a tal Patrcia para cima e para baixo e para se exibir. Comigo,
no comeo da carreira, a gente andava
de fusca com cano de descarga solto. Um horror.
Que feio, me! Achei que conseguiria, mas no sou capaz de aturar voc falando mal do papai. Agora eu entendo por que o
coitado soltou outro dia que ex-mulher
 pra sempre.
O careca disse isso?
E com razo, pelo que estou vendo. olha a ex que o coitado arrumou. Uma mulher irritada, mal-humorada, de mal com a vida. Fala
srio, me! Essa no  voc. Chorar
e maldizer o leite derramado no adianta nada. V  luta! E se a proposta for boa pegue, o que tem de mau nisso?
Ela me olhou espantada. Respirou, baixou os olhos e confessou:
 humilhante aceitar emprego de ex-marido.
Que besteira, me!  humilhante na sua cabea. S na sua cabea. Vem c, vem. Acho que hoje  voc que est precisando de
colo.
Colo, filha? Eu quero. confessou, frgil e chorosa.
Ela me abraou forte e desandou a chorar no meu ombro. Pouco depois papai chegou, mas mame preferiu inventar uma desculpa
fajuta para no receb-lo e passou a noite
trancada no quarto, mastigando a dor, acostumando-se com ela, enquanto ele botava a conversa em dia comigo e com meus irmos.
Fui me da minha me hoje. E gostei. A vida  assim, vem em ondas, como disse o sbio Vinicius de Moraes. Um belo dia, voc
acorda e se v obrigada a cuidar um pouco
de quem sempre cuidou de voc. E  nesses momentos que descobrimos que nossos pais no so super-heris. So gente como a gente,
s que mais crescidos, o que no
quer dizer mais maduros. Pela primeira vez, no me senti uma pirralha perto da minha me. Conversamos, sim, de mulher para
mulher, e ela escutou de verdade cada
palavra que saiu da minha boca. Acho que consegui ajud-la. Mesmo. No sei se muito ou pouco, mas ajudei. E estou feliz da vida
por isso.
Candidatos a padrasto.
 sempre um problema quando minha me traz algum para apresentar para a gente. Um constrangimento s. O meu irmo fica todo
ciumento, querendo bancar o homenzinho
da casa, a Malena arma uma tromba e eu, por ser a mais velha, tento bancar a filha madura, que pensa, que gosta de conversar com
os namorados da me. O problema
 que ela faz questo de apresentar para a prole todos os caras que ela conhece.
Me, no pode ser assim! Imagine se eu te apresentasse todos os caras que eu beijo? No ia fazer outra coisa na vida. A gente
s apresenta para a famlia caras
que tm potencial para engrenar num relacionamento srio alertei.
Eu no sou desse jeito, Maria de Lourdes. S me sinto bem na companhia de uma pessoa depois que vocs aprovam.
T, n? Fazer o qu?
O cara da vez  o Macedo. Minha me j disse para a Malena que ele faz mgica. Ah, sim. Ela sempre faz questo de frisar as
habilidades e os predicados dos pretendentes.
 como se a gente ignorasse, e a verdade  que a gente ignora, se o cara  gente boa, se  do bem, se gosta dela, se ela gosta
dele, se ele faz nossa me dar boas
risadas. o discurso comea sempre assim:
Crianas, este meu novo namorado  um piadista, e tem uma casa em Angra com um escorregador direto para o mar. U-uh! ou
ento: Crianas, o Jacinto, este novo,
planta bananeira com uma mo s e anda de cabea pra baixo! Vocs entenderam? O homem anda de cabea pra baixo, gente,  uma
loucura, j trabalhou em circo, tem
mil histrias pra contar, vocs vo amar esse namorado da mame, tenho f. E sabe o melhor? Ele tem cavanhaque! Ns amamos
cavanhaque, no ?
S pra deixar claro, no, aqui em casa ningum ama cavanhaque. Ningum nem pensa em cavanhaque. S a minha me. Mas como isso
no  importante para dois seres insensveis
como meus irmos, eles do de ombros e fazem caras de bunda s para contrariar o eleito da hora, sabe-se l por qu. Eu no!
Eu sou bacansima, tento sempre apaziguar, equilibrar com delicadeza e bom humor a antipatia dos meus irmos.
O problema  que, quando apresenta namorado, minha me s vezes fica esquisita.
Crianaaas! Digam boa noite para o Macedo.
Boa-noite, Macedo! dissemos em coro, meus irmos zero empolgados com o tal Macedo, um cara alto e atltico e meio sem jeito
com pessoas mais novas do que ele.
E o Macedo vai querer o que para beber?
Aquela voz de animadora de auditrio paulista estava me irritando.
Fala direito, me pedi, rspida.
Desculpa, desculpa, acho que estou nervosa justificou-se enquanto me puxava para ajud-la com a bebida.
Alm de fazer mgica, Macedo  primo do Didi, ou melhor, do Renato Arago. E a Malena  louca pelo Didi. Eu amo o Didi, o Mam
ama o Didi, toda a minha famlia ama
o Didi. Talvez por conta do Didi, a cada segundo o cara meio sem jeito ia ficando mais legal, mais divertido. Depois dizem que
adolescente  interesseiro. Pensando
bem. ns somos, mesmo.
Voc  de onde? perguntei.
Do Cear.
Terra do Didi? quis saber minha irm.
Do Didi?
 amor. Contei pra eles que voc  primo do Renato Arago.
Ah. . Ento est bem. Sou primo distante, no sei se ele  de l querida.
Voc sabe o nome dele todo?
Sei, claro. Renato Arago.
No bobo! O nome do Didi!
Eu no tenho a menor idia! Quer dizer, est na ponta da lngua, mas agora no consigo me lembrar.
Como no?  Didi Moc Sonrisal Colesterol Novagina Mufumbbo, com dois bs.
Ih, o Didi vai ficar todo feliz quando souber que a Malena decorou o nome dele, no vai, Macedo?
Vai? Claro que vai, vai ficar felicssimo, a felicidade em pessoa.
Como  o Didi no dia-a-dia? Ele  engraado?
Macedo estava visivelmente desconfortvel por ter de responder quelas perguntas que no paravam de sair da boca da minha irm.
mas respondia, meio suando frio, quase
gaguejando.
Ele? Nossa. engraadssimo, muito, muito engraado mesmo. Hilrio.
O que ele faz de engraado?
O que ele faz de engraado? Hum. como assim? No entendi sua pergunta.
Chega desse papo, o Macedo no gosta de ficar falando do primo famoso.
O Macedo foi embora e eu fiquei encasquetada com essa histria de Didi. No dia seguinte, fomos  praia e perguntei de supeto:
Quando  que voc vai levar a gente para conhecer o Didi? Ns adoramos ele.
Levar para conhec-lo. ai, ai, ai.
Em breve, no , amor? intrometeu-se mame.
, em breve.
Voc vai levar a gente na casa dele? Onde o Didi mora? perguntou Malena, com os olhinhos brilhando.
ngela, querida. agora eu me lasquei. Preciso contar a verdade, no sei mentir. Queridas, no tem Didi. Nem Renato Arago.
sua me inventou essa histria s
para vocs gostarem de mim confessou ele, desolado.
Malena desandou a chorar na cara do coitado. Eu confesso que tambm fiquei triste. No queria descobrir aquela farsa assim, to
facilmente. O pior, quero dizer,
melhor,  que o Macedo j tinha nos conquistado.
Mas ele e minha me no ficaram juntos nem trs meses. Depois dele teve o Otvio. E tambm o Joo, o Alfredo, o Barbosa, o
matoso. E pensar que a mame me julgou
muitas vezes uma menina fcil. Depois do fim do casamento ela  que anda facinha, facinha.
Minha primeira vez.
Arrumei um bico de vendedora num shopping perto de casa para dar uma reforada na mesada. Comeou como um trabalho de frias,
mas a gerente gostou de mim e eu fui
ficando. Estou l h cinco meses, levo jeito para a coisa e ganho um bom dinheirinho no fim do ms.
Chamei minha me para almoar, tudo por minha conta. Mas eu tinha segundas intenes.  mesa, os pratos j na nossa frente, ela
elogiou o programinha me e filha.
Que chique voc me convidar para almoar. Estou to orgulhosa da minha boneca.
Que nada, me, voc merece.
Bem cheio esse restaurante, hein?
 sempre assim. Lotado.
O problema so as mesas, muito perto umas das outras.
Ri para criar um clima intimista, me.
H.
Passa o sal? pedi.
Claro.
Enquanto salgava a salada, pensei:  agora! Enchi os pulmes e dei a noticia:
Rolou minha primeira vez.
O qu? reagiu ela, os olhos arregalados, para logo depois engasgar.
Findado o ataque de tosse materno, continuei tentando aparentar total tranqilidade. Conversar sobre sexo com a minha me sempre
foi muito difcil. Agora, ento,
que o sexo tinha relao direta comigo. ui!
Voc. voc no  mais virgem?
No, me,  exatamente isso que estou querendo te contar. No  bacana?
No, Maria de Lourdes, no  bacana.  tudo, menos bacana. Quem deixou voc transar?
Fala srio, me!
E quem  esse aproveitador de meninas indefesas? Onde ele mora? Qual o nome da famlia dele? Quantos anos ele tem?
 s um garoto, me. Ele se chama Lucas Teixeira Pinto, tem 18 anos.
18? Um homem, santo Cristo! J dirige, j pode beber, j pode ser preso se cometer algum crime. um homem formado saindo com
a minha menininha.
Arr ignorei. Bom, ele  vendedor na loja e modelo nas horas vagas.
Modelo, Maria de Lourdes? Modelo? O cara no podia ter uma profisso normal? No podia ser mdico, advogado ou engenheiro?
 sempre bom ter um advogado na famlia,
sabia?
Quem falou em famlia, me? No viaja! Posso continuar? estrilei. O Lucas  gente boa, j foi campeo de natao e est
saindo comigo a trs semanas.
Trs semanas? S trs semanas e os dois apressados j. Ah, Maria de Lourdes, que oferecida! ela me criticou, cheia de
desgosto no olhar.
Oferecida? Que coisa mais antiga! Como voc  antiga!
Dessa vez, ignorou-me e quis inteirar-se do assunto:
Vamos ao que interessa. Foi. tudo nos conformes?
O que voc quer dizer com isso? Quer saber se foi bom?
No, Maria de Lourdes, de jeito nenhum! Estou querendo saber se vocs usaram cami.
Vou te contar como foi.
No! No precisa! No quero saber! chiou, tapando os ouvidos com as mos e cerrando os olhos, mantendo-os completamente
fechados por alguns segundos.
 ela no queria mesmo saber, percebi. Mas resolvi continuar:
Vou contar mesmo assim, preciso. A primeira vez foi mais ou menos, a segunda boa e a terceira uma delcia. Pronto, falei.
Ai, que alvio.
Trs vezes! Trs vezes e s agora eu fico sabendo, Maria de Lourdes?
Me, no se exalte, estamos num restaurante.
Ah! Ento me trazer aqui foi uma ttica?
Claro. Num lugar pblico voc jamais teria coragem de fazer escndalo, de gritar para todo mundo ouvir que eu perdi a
virgindade. Isso te mataria de vergonha.
Se essa conversa tivesse rolado l em casa voc estaria gritando comigo at agora.
Muito espertinha. S me diz uma coisa: trs vezes em trs semanas? Hum. at que no  to ruim.
Claro que no, me! Como eu no sou oferecida, nas duas primeiras semanas no rolou nada, s beijos e outras coisinhas.
as veses rolaram ontem, anteontem e antes
de anteontem.
Trs dias seguidos?
, me.
Meu Deus! E voc est apaixonada?
No, me.
Ento Lucas Teixeira Pinto, 18 anos, no  nem de longe o homem da sua vida.
Claro que no, me!
Ento. Por qu? perguntou, dramtica.
Porque estava na hora! Porque deu muita vontade. Porque o cara  tudo de bom. E, c entre ns, porque eu era a ultima virgem
das minhas amigas.
Esse motivo  ridculo. Transar s por causa disso  a maior bobagem do mundo.
Claro que no foi por causa disso.  que deu mesmo, muita, muita vontade. Sabe quando o corpo fica todo quente?
Sei, sei, mas pode pular essa parte.
O Lucas  muito belo, por dentro e por fora, rolou o maior clima gostoso, pensei por que no? E no me arrependo. Foi timo,
tem sido timo.
Mas esse menino quer ser vendedor pelo resto da vida?
No, ele quer ser piloto de avio.
Piloto de avio? Que coisa perigosa! Ser que voc vai ficar viva novinha? Ah, no, minha filha merece um futuro melhor.
Me! Vira essa boca pra l! Que idia! E quem disse que o Lucas est no meu futuro? Nem pensei nisso, j te disse! Ele  s um
 namorado. Que vai ficar na minha
memria como o primeiro homem da minha vida. Se vamos dar certo ou no, a j  outra histria.
Muito silncio. Ela balanou a cabea afirmativamente umas 77 vezes, olhou para a toalha, para os vizinhos de mesa, para os
garsons. Um deles, inclusive, parecia
gostar bastante da nossa conversa.
J foi ao mdico?
J.
No doutor Hermgenes?
No, na mdica da Alice.
Por que no foi no nosso mdico da famlia, Maria de Lourdes? Ele  to bom!
Porque achei que teria vergonha, sei l. Preferi ir numa especializada em adolescentes. Fiz direitinho, fui numa semana antes
de rolar.
timo, mas foi pedir recomendao justo  Alice? Aposto que o hmem daquela ali j deixou de existir faz tempo!
Isso no  da sua conta. E que jeito vulgar de falar!
Vulgar  essa Alice! Eu sempre soube que essa menina  uma solta, fcil, largada no mundo.
No vamos entrar no assunto Alice, por favor! No tenho pacincia. Em vez de me perguntar se estou feliz, se o Lucas 
bacana, se me trata com carinho. voc
s pensa e diz coisas chatas.
Ela ouviu cada palavra que eu disse, respirou, deu umas garfadas e limpou a boca com o guardanapo. Em pouco tempo, reconheceu:
Voc est coberta de razo, mil desculpas. Voc. est feliz?
Muito.
E. ele .
Bacana? Bacansimo. E, sim, ele  muito carinhoso, no tem com o que se preocupar. O Lucas  todo amorzinho, um dia eu te
apresento.  muito bom estar com ele.
Eu e minha me nos entreolhamos com carinho e cumplicidade. Ela me pediu novamente desculpas, dessa vez com os olhos. aceitei
dando um beijo nas suas mos. O clima
era de paz novamente. Um tanto esquisito, mas de paz.
Precisamos arrumar uma maneira de contar para o seu pai.
Oh- oh!
. assim, . ele j sabe. Dormi na casa dele no dia, quando cheguei ele ainda estava acordado, ento resolvi contar.
o papai no ficou nada ciumento ou zangado.
Me deu um abrao e conversou horas comigo, fomos dormir com o sol raiando.
O qu? Poupe-me desses detalhes, Maria de Lourdes! No acredito que eu sou a ultima a saber! Pior do que ser trada pelo
marido  ser trada pelos filhos. Preferia
ter morrido se saber que seu pai soube primeiro. Que desgosto! Achei que ns fssimos melhores amigas! Mas agora acho que seu
pai  seu melhor amigo, n? Voc gosta
mais do seu pai do que da sua me, Maria de Lourdes? Responda, no se faa de sonsa surtou ela.
Reclamou e resmungou com todas as foras, cada vez mais alto, mais estridente. Acabou fazendo um pequeno escndalo no
restaurante. Ficou bem mais indignada com a
histria do papai do que com a minha primeira vez. Vai entender as mes!
 noite, quando eu j estava deitada, ela entrou no quarto para me dar um beijo. Cobriu-me, sentou-se na minha cama e comeou a
me fazer cafun.
Maria de Lourdes, eu queria te dizer uma coisa. estou muito orgulhosa de voc.
, me?
 filha. Muito disse emocionada.
Mas por qu? Pelo que eu te contei hoje?
Por voc ser quem voc . Durma com os anjos encerrou o assunto.
Depois levantou, saiu e fechou a porta.
Apaguei a luz, virei de lado e dormi. Profundamente feliz.
17 ANOS.
Uma viagem a Punta.
Mame reuniu os trs filhos na sala depois do jantar. Tinha uma importante proposta a fazer. E no ficou de nhenhenhm, no.
disse na lata:
Que tal uma viagem em famlia para passarmos o rveillon juntos?
Oba, me! Que barato! gritou Malena, que ainda est naquela fase em que viajar com os pais  tudo de bom.
Para onde? quis saber meu irmo, j com cara de saco cheio.
Para Punta del Leste, um balnerio chiqurrimo no Uruguai. Que tal?
Olha s. quem diria? A idia era tima, todo mundo fala superbem de Punta, lugar cheio de gente bonita e points badalados. Dei
a maior fora:
Que legal, me! E qual vai ser o esquema?
O dia 31 cai numa quinta, ento a gente pode sair daqui na segunda.
Na segunda? estranhei.
. E voltamos na tera ou quarta seguinte.
Mais de uma semana viajando? No  muita coisa? E o seu trabalho? No vai te prejudicar com seus clientes?
Quatro dias sero o ideal, filhota, mas de carro no d.
H?
De carro? dissemos em coro eu e meus irmos.
At o Uruguai? frisei.
Isso!
De carro, at o Uruguai? perguntei mais uma vez, s para checar.
De carro at o Uruguai, sim, foi o que eu acabei de dizer, Maria de Lourdes. Ensurdeceu?
Por qu? Eu continuava indignada.
Por qu? Porque  uma viagem linda. A gente passa por Cambori, conhece a serra gacha, pra em um lugar bonito para tirar
foto, conhece as estradas brasileiras.
Conhecer as estradas brasileiras? Para qu? perguntei, ainda profundamente indignada.
Cultura geral, Maria de Lourdes! Sem contar que no caminho tem a cidade de Paranagu!  s parar em Curitiba e pegar um trem
que em duas horinhas estamos l comendo
os melhores camares do mundo.
Pegar trem para comer camaro? Eu sou alrgica a camaro, me! Alm do mais, tem camaro aqui no Rio, eu posso comprar para
voc contestei.
Alergia  frescura. E l tem os melhores camares do Brasil, duvido que voc passe mal com eles.
Que programa de ndio ir para Punta de carro! pus em palavras meus pensamentos e os do meu irmo.
Voc no achou que iramos de avio.
Claro que achei, me! Cariocas normais vo de carro para Petrpolis, para Bzios, no mximo para So Paulo. Para
punta del leste e adjacncias as pessoas vo de
avio.
Mas so s trs dias dentro do carro!
Trs na ida e trs na volta? quis confirmar.
E trs em Punta! Ela me apavorou.
Fala srio, me! Estou forsima! No h a menor possibilidade de eu ir nessa roubada.
Mas voc  uma ingrata mesmo, viu, Maria de Lourdes? Eu s quis fazer essa viagem por sua causa! Ano que vem voc presta
vestibular. Depois entra na faculdade
e nunca mais vai querer viajar com a gente. Essa era a ltima oportunidade de viajarmos todos juntos. Agora est a, botando mil
 obstculos.
Que drama! Logo ela, que  a pior motorista do mundo, tem o p mais nervoso que j vi, quer ir dirigindo pra outro pas!
Louca. No vou nem amarrada.
Mezinha, essa viagem nasceu desastrada argumentei.
Por qu? Voc foi para Florianpolis no ano passado de nibus. nibus! Pegar estrada na companhia da sua me e dos seus
irmos voc no quer, nem cogita. Com
os seus amigos at de carroa voc viajaria.
Mulher no volante perigo constante filosofou meu irmo.
D! fizeram em coro Malena e minha me.
No  nada disso, bobo. Mezinha, essa viagem. como  que vou descrev-la.  a pior proposta que eu j ouvi na vida.
Por qu? Prepararei com a sua av umas quentinhas deliciosas para a gente comer na estrada, vou levar papel higinico para as
horas de aperto e tambm um ventiladorzinho
porttil, para a gente no derreter, j que o ar do carro ainda est quebrado. Planejei tudo, no tem como no ser tima a
viagem.
Quentinhas? Aperto na estrada? Ventilador? Ela s podia estar brincando.
Mas no. Levava a srio cada palavra que ela dizia. Tadinha, no final das contas nem Malena, a mais empolgada, queria ir.
Quando eu for rica levo todo mundo para l de avio tentei ser simptica.
, filha. no quer ir mesmo? A gente vai cantando, conversando, contando anedotas, nem vai ver o tempo passar.
Cantando e conversando? At o Uruguai? Que pesadelo! Insisti:
No, me. Quando eu for rica juro que levo todo mundo de avio. Enquanto isso no acontece a gente podia combinar de fazer uma
viagem menos cansativa no fim do
ano, para Bzios ou para a serra. Que tal?
Jura? Ento ns vamos viajar e passar o rveillon juntos? ela disse, toda alegrinha.
No! Mil vezes no! No era essa a inteno! Eu quero passar o rveillon com os meus amigos!
Mezinha, lindinha, que tal viajarmos antes do rveillon?
Ela reagiu com um ar de profunda decepo e no demorou para as lgrimas brotarem nos olhos, prontas para protagonizar um drama
daqueles. No tive alternativa:
T bom, me! T bom! Vamos viajar todos juntos para o rveillon. Mas sem esse negcio de cantoria na estrada, por favor!
Presente de me.
Fiquei em casa estudando enquanto minha me foi passear no shopping, que est em liquidao. Ela est cheia de paparico para
cima de mim, acho que se sente orgulhosa
por eu ter tomado jeito e comeado a levar os estudos a srio. Claro, no quero levar bomba no vestibular.
De repente, o telefone toca.  ela.
Maria de Lourdes, voc no vai acreditar! Tem uma blusinha aqui na MadCrazyLips que  um arraso, um desbunde!
Desbunde? O que  que  isso? Tem a ver com bunda?
Depois te explico, filha, no posso demorar, estou falando no telefone da loja. E ento, posso comprar? Se voc disser que
gosta, mame leva duas, voc merece.
Como  que eu vou gostar sem ver? Melhor no comprar, me!
Mas  uma graa a blusinha. Voc vai amar,  a sua cara. Tem canutilhos bordados.
Voc no pode ter achado uma blusa com canutilho a minha cara. Eu odeio canutilho e qualquer coisa que brilhe bordado numa
blusa!
Ah, ? Jurei que voc gostasse. No!  a Malena que gosta.
A Malena odeia. Voc tem certeza de que conhece seus filhos?
Ela me ignorou.
A manguinha dela  toda moderna, bem bufante.
Bem bufante? Quem  que usa manga bem bufante hoje em dia?
A vendedora est aqui me antecipando que as mangas bem bufantes vo voltar com fora total nesse inverno, foram a sensao nos
ltimos desfiles em Paris e so.
como  mesmo?, ah, sim!, cheias de conceito, sabe l o que  isso? Chiqussimo!
Que chiqussimo, o qu? Ela  vendedora, me, e vendedoras ganham por comisso. O trabalho dela  empurrar coisas encalhadas.
No deixa essa mulher te enrolar!
Imagina, Maria de Lourdes! A Suzana? Me enrolar? Ela  to boazinha. Acredita que ela percebeu que meus olhos so verdes perto
da ppila? Disse que com a roupa
certa o verde deles pode ficar da cor da Amaznia.
Est te enrolando. Seus olhos so castanhos, quase pretos!
Minha me sempre quis ter olhos claros. Seu sonho era ter puxado os olhos do meu av, azuis acinzentados.
Um belo dia, quando ela tinha uns trinta e poucos anos, descobriu, no breu de sua ris, o fim de sua tristeza: um minsculo
trao verde perto da ppila. Desde ento,
cisma que tem olhos verdes e mostra para todo o tal do trao, pena que ningum consegue v-lo.
S essa vendedora.
Que nada, menina. Ela  atenciosa, isso sim. Acabou de me mostrar sem compromisso uma blusinha verde da nova coleo, que  da
cor dos meus olhos e adivinha como
se chama? Amaznia. No  lindo? Pena que no est na promoo. Mas d para fazer em duas vezes no carto.
No discuta comigo, eu sou vendedora, sei como isso funciona. Ela j disse nossa, como a senhora  bonita?
Primeira coisa que ela disse quando entrei na loja.
Elogiou seu cabelo e perguntou qual o xampu que voc usa?
Segunda coisa, quando eu j estava com uns cabides na mo.
Perguntou seu nome mas s te chama de Angel e pediu pra cham-la de Su?
Menina, voc  boa nisso! A Su no consegue me chamar de ngela, s de Angel. Acha que tenho cara de anjo.
Voc experimentou alguma cala que ficou apertada e ela disse que no  voc que est gorda,  a modelagem da loja que 
pequena?
Aconteceu exatamente isso, Maria de Lourdes. Eu experimentei uma cala verde-musgo e.
Sai voando da! Ela faz o tipo melhor amiga de infncia, essas so as piores.
Mas  to bonita a blusa de manga bem bufante! A manga  bufante do ombro ao cotovelo, justa at o pulso e de boca larga do
pulso para baixo.  uma pea repleta
de detalhes inovadores, como me disse a Suzana. Uma modernidade s.
Uma breguice s.
Que breguice? Essa loja tem em Ipanema.
E da?
E da que Ipanema  chique.
Manga bem bufante e com todos esses detalhes que voc descreveu  horrvel em Ipanema, Paris ou Vilar dos Telles.
Mas disfararia esse seu brao gordo de que voc tanto reclama.
Ai, que grossa! Puxei de voc essa tora e esse sovaco rechonchudo, t? Muito obrigada, mas no quero blusa nenhuma.
Tem amarelo, laranja e verde ctricos.
Ctricos? Eu odeio cores ctricas, me! Voc no pode querer me dar essa blusa horrorosa de presente!
Ih, boba, ela tem uns botes coloridos nas laterais e umas franjas metlicas que so um luxo, do um tchan que s vendo.
Franjas metlicas? Fala srio, me! Obrigada, mas no precisa. Consigo imaginar qualquer pessoa nessa blusa, menos eu.
impressionante: vivemos debaixo do mesmo
teto h 17 anos e voc no me conhece nada.
 que eu posso fazer em trs vezes no carto.
Quer me dar presente compra um CD ou um livro, ento.
Nem numa festa de arromba voc usaria essa blusa?
No. Mas o que vem a ser uma festa de arromba?
Deixe de ser implicante, Maria de Lourdes. Nem na sua formatura voc usaria?
Menor chance! A descrio dessa blusa talvez seja a coisa mais pavorosa que j ouvi na vida.
Mas eu vou lev-la. Se voc no gostar mesmo eu fao uns ajustes e fico com ela para mim.
Eu no vou gostar mesmo! Compra logo uma do seu tamanho, ento.
Tem certeza?
Absoluta.
As intenes so sempre as melhores, mas minha me no consegue dar uma dentro em matria de presentes para os filhos. E se
deixar enrolar por qualquer vendedora,
basta dizer que ela est linda. Ou que seus olhos so verdes.
Arrumando o quarto.
Est tudo arrumado, t? Beijo, te vejo mais tarde.
No, no, no, Maria de Lourdes! Nada disso, pode dar meia-volta. Voc s sai depois que eu conferir como ficou a arrumao do
seu quarto.
Ah, no! Fala srio, me! Assim eu vou perder o cinema! J j, a me da Alice vai estar aqui embaixo buzinando.
 essa chatice toda vez que saio. Antes de pr o p na rua, a ditadora decretou, eu tenho de deixar meu quarto um brinco. Passei
a vida inteira ouvindo minha me
me esculhambar por causa da baguna do meu quarto-doce-quarto, mas jurava que a ladainha fosse melhorar quando eu estivesse mais
crescidinha. Que nada! Como meus
irmos so insuportavelmente organizados e certinhos, ela pega no meu p cada vez mais.
Fomos para o meu quarto. Ela queria verificar seu estado.
Da ltima vez que voc disse que arrumou encontrei um par de tnis, com meia dentro!, embaixo do seu travesseiro!
travesseiro!
Porque voc me obriga a arrumar e eu no gosto de fazer nada por obrigao.
Que desculpa mais sem contedo, Maria de Lourdes! Voc no pode ser uma menina relaxada, filha, precisa aprender a ter cuidado
com as suas coisas.
Eu me entendo muito bem na minha baguna.
Tnis embaixo do travesseiro no  baguna.  um nojo,  porcaria,  rin, rin.
No precisava desse rin, rin. No mesmo, mas tudo bem.
Concordo com voc, me, mas meu quarto no requer tanta arrumao, eu encontro tudo na minha desordem.
Impossvel. Voc vive aos berros procurando caderno, caneta, livro, celular, bicicleta. Sua me encontra at uma agulha no
escuro no quarto dela.
E voc tem orgulho disso?
Tenho, sim. Muito.
Pois sabe do que eu me orgulho? Do meu quarto. Ele  a minha casa, meu mundo, meu pas. Voc no tinha nada de se meter com
ele. Cad a minha individualidade?
Cad o respeito  privacidade?
Ih. comeou o discurso adolescente politicamente correto reclamou ela, antes de ver o que eu no queria que ela visse:
O que  isso, Maria de Lourdes?
Eu no acredito! Voc botou seus sapatos imundos dentro do armrio de lenis limpinhos e cheirosinhos?
T vendo o que voc faz? Por causa da pressa para organizar tudo acabei guardando no lugar errado.
E o que esses cds esto fazendo na gaveta de meias? E o que faz um cd do Santana dentro da caixa do Chico Buarque? Onde est o
cd do Chico?
No sei, me, no sei!  que na correria acabo fazendo bobagem. O ideal seria que eu s arrumasse meu quarto quando me desse
vontade, porque a eu no faria mal
feito. Faria muito devagar, botando tudo no seu devido lugar, guardando os cds nas caixas certas, jogando fora papis que no
servem para nada, tirando de debaixo
da cama os meus cadernos e livros da escola.
Arrumando a gaveta-depsito.
No, a gaveta-depsito, no!
Um dia voc precisa arrumar aquilo, Maria de Lourdes. Tudo o que voc ganha, compra, troca, conserta ou no tem utilidade vai
parar l. Bicho de pelcia, agenda
dos anos anteriores, chaveiros, esmaltes que j secaram, ms de geladeira sem a parte magntica, canetas que no funcionam,
relgio, apito de guarda noturno.
Eu precisaria de dias para dar um jeito naquilo,  impossvel arrum-la rapidinho, antes de sair.
Rapidinho? Escute aqui, Maria de Lourdes, a determinao : ningum sai de casa enquanto no arrumar o quarto, no tem esse
rapidinho. A regra  clara como gua
e nasceu h exatamente 10 anos.  bastante tempo, no era para voc j ter se acostumado com ela?
No. Nunca vou me acostumar com essa regra idiota, injusta, desumana, tirana, exagerada, sem propsito.
Ah, que pena. Regras so regras e, como j te disse vrias vezes.
Enquanto voc pagar minhas contas e eu morar embaixo deste teto  voc que manda rosnei, irritada at a alma.
Isso mesmo! Ento, Maria de Lourdes, da prxima vez que voc for sair, comece a arrumar seu quarto trs horas antes, sim,
filhinha? Vai ser melhor para todo mundo,
at para mim, que no agento mais ter essa conversa com voc.
Fechado, da prxima vez eu arrumo. Beleza?
No, no t beleza. Pensando bem, tenho uma proposta mais interessante. Que tal cancelar o cinema e dar um jeito no seu
armrio hoje, Maria de Lourdes? Ele est
parecendo fim de liquidao. Tem roupa do avesso, roupa amassada, roupa que precisa ser lavada, roupa furada, roupa rasgada,
todas amontoadas at o teto! Como 
que voc consegue viver assim, minha filha? Ligue para a Alice e diga que voc no vai.
Ela pirou! Apelei para o diminutivo, uma ttica que costuma colar com a minha me:
Mezinha amadinha, bonitinha, gostosinha, maravilhosinha, meu amorzinho. Por favor, pelo amor que voc tem por mim e pelos
seus filhinhos, deixa eu arrumar meu
quartinho direitinho da prxima vez? Por favor!
Ufa! Pelo olhar condescendente, ela comprou meu draminha!
Jura que da prxima vez voc arruma com antecedncia? No quero mais ficar nesse nhenhenhm com voc.
T combinadssimo, me! Beijo! sai correndo na direo da porta.
Maria de Lourdes! No acredito que voc deixou uma toalha molhada em cima do lenol e, para completar, botou a colcha por cima!
O que  que  isso? Onde  que
ns vamos parar?
Xi! Para minha sorte, o elevador chegou rpido e eu no fiquei para ouvir o resto das reclamaes. Imagina o escndalo que ela
fez quando encontrou minhas calcinhas
secando do lado de fora da janela.
18 ANOS.
Uma conversa sobre homens.
Ando meio jururu. Hoje mais do que ontem, talvez seja a tpm. Fazer o qu? O fato  que apesar de ser uma menina feliz, amada,
bem resolvida, que j sabe que vai
prestar vestibular para jornalismo, 90% dos meus amigos no tm idia do que querem fazer quando crescer, e com uma famlia
linda, h tempo no arrumo namorado srio,
um namorado de verdade, um cobertor de orelha, algum para chamar de meu. No sei o que acontece.
Sozinha em casa com minha me, resolvi ter com ela uma conversa de mulher para mulher, para tentar entender de uma vez por todas
esse res controversos e incoerentes,
os homens.
Talvez ela no seja a pessoa mais indicada para dissertar sobre o tema, j que a fase de empolgao ps-separao passou e,
apesar de bonita por dentro e por fora,
bem-sucedida, bem resolvida, independente e alto-astral, ela tambm no arruma namorado.
Agora, minha me s quer saber de maldizer a alma masculina. Mas como me  me e tem sempre uma coisa boa e incentivadora para
dizer, resolvi puxar papo.
Homem no presta, filha.  tudo igual, tudo farinha do mesmo saco.
h-h! No comeamos bem a nossa conversa. Tentei de novo:
Mas eu vivo ouvindo por a que ruim com eles, pior sem eles.
Nada  ruim na sua idade, Maria de Lourdes. Ruim  a minha situao. Voc tem a vida toda para arrumar um namoradinho, eu no.
O relgio anda mais rpido depois
dos 40.
, me. no fala assim.
Mas  verdade. E no  crime eu querer um namorado que me d carinho, compreenso e conserte a pia quando ela entupir, n?
Claro que no.
Agora que estou a procura de um namorado no acho nenhum. Quando eu no queria saber de compromisso, logo depois de me separar
do seu pai, chovia homem atrs de
relacionamento srio.
Caraca! Acredita que rola a mesma coisa comigo?
Claro. E sabe qual  a moral dessa histria? Homens, de qualquer idade, nossos ou no, adoram nos contrariar. Eles so uma
caixinha de surpresas, no perca tempo
tentando entend-los.  impossvel.
Fala srio, me!
Estou falando, serissimo.
Quer dizer que a gente nunca vai entender por que eles pedem nosso telefone se nem pensam em ligar no dia seguinte?
O que eu acabei de dizer, Maria de Lourdes? No tente entend-los. Essa pergunta angusta mulheres h sculos e ningum
encontrou uma resposta decente para ela.
Por que eles espalham para os amigos quando ficam com a gente? E por que do sempre detalhes que no existiram?
Sei l!
Por que eles no gostam de dr?
dr?
Discutir a relao, me!
Seu pai me disse uma vez que homem que  homem no dana, no diz que fofo e no discute a relao.
Que bobo.
Tambm acho. Coisas desse tipo nos levaram  separao.
Estava gostoso aquele teretet familiar com pinta de desabafo mtuo.
 sempre assim, me? A vida toda? No muda nunca?
Mame me explicou que, sim,  assim a vida toda. O importante  no deixarmos nossa auto-estima ir para o p por conta da
indeciso e da falta de comprometimento
do sexo masculino.
Temos que gostar da nossa prpria companhia, filha. Aprender a gostar de ns mesmas  um grande passo para deixar de querer
entender a cabea dos homens. Eles
so feitos de outro material, so de outra espcie. Nossa felicidade no pode depender deles ou de um relacionamento srio.
existem milhes de coisas que me fazem
feliz e, enquanto meus namoros no vingarem, eu me divirto com elas.
At que minha me estava boa de conselhos mas, como senti nela uma pontinha de desapontamento por estar solteirinha da silva,
tentei dar uma fora e assumi minha
poro conselheira. Disse que ela no anda tendo sorte com homens porque eles s querem saber de namoricos espordicos.
Que venham os namoricos! Namoricos no fazem mal a ningum, pelo contrrio.
Uau! Que surpresa! Nunca achei que ouviria uma coisa dessas da minha me. Que bacana ela admitir que toparia ficar sem
compromisso. O que no faz uma tarde ensolarada
regada a assuntos tipicamente femininos? Argumentei:
Mas voc no tem cara de mulher que topa relaes vazias, tem cara de mulher para casar. Os homens te respeitam, querem pegar
na mo, vir aqui em casa conhecer
a sua me e seus filhos, te apresentar para a me e para os filhos deles, morar junto, ter filhos, essas coisas.
E quem disse que eu quero casar de novo? Cruz-credo! Tambm no quero mais filhos, trs est de bom tamanho.
Fiquei ali um tempo com ela na sala, falando do sexo oposto, da vida, do futuro, do presente, do passado, de quando eu era
menininha. E no achei chato ouvir as
histrias que ela j me contou mil vezes. Quando olhei no relgio notei que estvamos naquela conversa havia quase trs horas.
Passar a tarde de papo para o ar com a me. Quem diria? Foi tudo de bom.
Mame, me empresta o carro?
Assim que fiz 18 anos passei os dias a atormentar minha me. Era chegada a hora de aprender a dirigir. Perturbei tanto que ela
logo me matriculou na auto-escola.
no primeiro dia de aula, pontualmente na hora marcada, Jurandir, meu instrutor, me esperava na portaria. Jurandir era uma figura.
Logo na primeira aula fiz uma pequena
confuso com os pedais e tentei me justificar: Desculpa, foi um lapso. Ao que ele retrucou: Lpis, no, Malu! Isso foi uma
caneta! Engraadrrimo!
Assim, entre lpis e canetas, em poucos meses aprendi a guiar um carro. No dia em que tirei carteira, cheguei em casa louca
para experimentar com o carrinho
da minha me a deliciosa sensao de dirigir pela Cidade Maravilhosa.
Me, me empresta o carro?
No.
No?
Como no? Voc prometeu que me emprestaria o carro assim que eu tirasse carteira.
Prometi, foi? Mudei de idia.
Mudou de idia? No pode! Ningum muda de idia depois que promete uma coisa.
Mes mudam.
Por qu?
Por que mes podem tudo, u.
Que injustia, cara!
No acho que voc esteja segura para dirigir, Maria de Lourdes, s isso. No esquea que acompanhei uma aula e vi tudo.
Que foi? Acho que eu no dirijo bem s porque o carro morreu sete vezes numa ladeira?
O nome daquilo  rampa, ladeira  outra coisa, queridinha. E era rampa pequena, de garagem. Alm disso, voc parou trs vezes
na faixa de pedestres.
Porque me distrai.
Pois . Motoristas no se distraem. Uma pequena distrao pode causar um estrago horroroso.
Mas aquela aula foi a sculos, eu hoje dirijo bem melhor,  s me dar a chave do carro que eu te mostro.
No, no e no. Voc ainda no est apta para dirigir, Maria de Lourdes.
Essa  boa! O governo me considera apta para dirigir, voc no.  piada, no ?
No, no  piada. Por isso, decidi que nos primeiros sete meses voc s dirige acompanhada por mim ou por seu pai e sempre
aqui pela vizinhana.
O qu? Voc no pode fazer isso.
Claro que posso. Voc s vai dirigir sozinha quando eu sentir que voc est segura no volante. Mas fique tranqila, eu sou uma
tima companhia.
Eu no quero a sua companhia! Que saco!
No imagino o porqu, mas prefiro registrar essa frase, dita de forma doce, meiga e suave, sem o no. Ento fica assim a
minha reao a ela: voc quer a minha
companhia? Que bom, querida! Agora estou ocupada, mas quando eu terminar este release posso pensar em dar uma volta de carro com
voc no quarteiro.
Eu no quero ir com ningum, quero saber qual  a sensao de dirigir sozinha! E pela cidade, no pelo quarteiro e pela
vizinhana n, me?
Que cidade, Maria de Lourdes, que cidade? Sobre dirigir pela cidade conversaremos daqui a um, dois anos.
Enlouqueceu? E se eu passar para uma faculdade longe de casa?
Eu me organizo para ir com voc, fazer o qu? Voc vai para a aula e eu espero a hora da sua sada para voltarmos juntas para
casa.
Me, isso no est certo. Assim voc est anulando a minha autoconfiana. Eu preciso dirigir sozinha, pegar estrada,
estacionar.
Estacionar. Ainda bem que voc tocou nessa questo. Para que tanta nsia para dirigir quando temos a melhor vaga do Graja,
que est ocupada por mim h duas semanas
e quatro dias? Nunca fiquei tanto tempo estacionada numa vaga to boa! Veja se dirigir  mais importante do que ter o carro
parado em frente ao prdio?
Me,  uma espcie de maluquice voc ir de txi para o supermercado porque no quer tirar o carro da vaga. E  uma maluquice
completa voc no querer que eu dirija
s para voc no tirar o carro dessa bendita vaga!
Bendita mesmo, filha. Daqui de cima eu vejo como est o carro, os porteiros vigiam, eu vigio. sem contar que para dar uma
limpada nele  s descer e atravessar
a rua. A aproveito para botar papo em dia com o flanelinha, vejo se algum passarinho mal-educado fez meu par-brisa de
banheiro.
Voc prefere v-lo a dirigi-lo. Percebe a maluquice de que te falei?
No. Mas vamos deixar nossa conversa furada que daqui a pouco comea a minha novela. Depois a gente papeia.
Eu no estou papeando! Nem estou de conversa furada! Estou discutindo, irritada, o meu futuro como motorista.
timo. A gente volta a discutir irritadamente depois da novela, ento.
Vou trabalhar dobrado na loja e economizar o quando puder para comprar meu carrinho.
Que timo, eu incentivo.
Vou entrar num consrcio.
timo, mil vezes timo, Maria de Lourdes. Acontece, filha, que voc no percebeu. seu carro, meu carro.  tudo a mesma
coisa. Eu no vou deixar voc dirigir
sozinha enquanto no sentir que voc est preparada. E est decidido.
Pirou! Completamente. Voc no pode controlar a minha vida desse jeito. Eu j tenho 18 anos, 18! Sou uma pessoa adulta, como
voc.
Est bem, pessoa adulta. Pode ser do contra, no ligo. Eu s acho que estou fazendo  o certo e  assim que vai ser. Vamos
assistir  novela juntas?
Essa legislao imaginria que delega plenos poderes s mes me deixa enlouquecida. Baseadas nela, elas se sentem no direito de
controlar como bem entender a vida
dos filhos criando regras, dando sermes, mandando,desmandando, proibindo, liberando, implicando sem motivo aparente.
So as leis maternas mostrando seu vigor. Filho criana, filho adolescente, filho velho. todos, mais cedo ou mais tarde, tm
de aprender a conviver com elas. Por
qu? Porque  assim e ponto, como explicaria a minha me com a fisionomia mais plcida do mundo, dando o assunto por encerrado.
19 anos.
Perguntas na madrugada.
Cinco e meia da manh? Isso so horas de chegar em casa?
Ai, me, que susto!  que a festa estava to boa que nem vi o tempo passar. Vou para o quarto, t?
No vai mesmo! S se me explicar que saia  essa. Voc quer que as pessoas pensem que voc no tm me?
Por qu?
Porque sua bunda est toda de fora!
Ih, me, larga do meu p!
O que  isso no seu pescoo, Maria de Lourdes? Chegue mais perto, Maria de Lourdes. Mais perto! Mais um pouco. Mais! disse
ela, pegando meu pescoo  fora,
para checar bem de perto. No pode ser! Um chupo, Maria de Lourdes? Que vergonha!
Vergonha de qu? Daqui a uns dias sai reagi, sincera e educadamente.
Voc est to fcil, Maria de Lourdes. To fcil! Olha o exemplo que voc est dando para a sua irm! Homens gostam de
mulheres difceis, quantas vezes eu preciso
te dizer isso?
Eu no sou fcil! Sou beijoqueira,  diferente.
Mas no foi essa a educao que te dei. No te criei para voc ficar por a beijando e passando de mo em mo, como uma
maria Corrimo.
Que baixaria! Quem disse que eu passo de mo em mo? Quase no fico com ningum! Comparada s minhas amigas eu sou
praticamente uma santa. Elas at me sacaneiam,
dizem que sou careta, que s fico com um menino quando acho que posso me apaixonar por ele.
Elas te sacaneiam? Que palavreado chulo, Maria de Lourdes! Meu Deus do Cu, para onde ser que foi tudo que eu te ensinei?
Fala srio, me! Sacanear no  palavro. Sacanagem no  palavro!
No meu tempo era. Por que voc no substitui sacanagem por bandalheira ou libertinagem?
Porque eu no tenho 80 anos.
Ai, Deus, que tristeza.
Voc acha uma tristeza eu no ter 80 anos? Jura?
A cor do seu cabelo  que est uma tristeza. Est laranja. Eu no acredito que voc. Voc pintou o cabelo, Maria de Lourdes?
Como teve coragem? disse, lbios
tremelicando em ritmo alucinante.
Ih, me, que drama! Pintei antes de sair, l na casa da Alice, o que  que tem? E no est laranja, est castanho acobreado.
Agora seu cabelo no  mais virgem, est estragado para o resto da vida.
ooh! E agora? O que faremos? Pobre Maria de Lourdes! debochei.
Olha a gozao gratuita e sem graa! No gosto disso. Que perfume voc est usando?  o meu preferido? O francs? Que est
quase acabando e que eu no tenho dinheiro
para comprar outro?
Esse mesmo. Peguei emprestado no seu banheiro.
Quem deixou?
Relaxa, botei bem pouquinho. Agora preciso dormir, ta? Amanh a gente continua.
No, senhora. Quem  o rapaz do carro?
Voc estava me vigiando?
No, estava esperando. Mas no pude deixar de notar que voc ficou 40 minutos tentando encostar a ponta da lngua na garganta
dele. Cena linda.
Voc estava me vigiando! Que absurdo!
Qual o nome dele? Quantos anos tm? Faz o qu? Dirige h quanto tempo?  respeitador ou assanhado? Cavalheiro ou cafajeste?
tem mo boba que desliza sem querer e vai parar na sua perna?
Espero que no!
Chega, me! Voc est me sufocando!
Eu sou sua me! E me preocupo com voc, sua mal-agradecida.
No precisa se preocupar, j no pedi?
Ah, sim, claro. S porque voc pediu, eu nunca mais vou me preocupar, fique tranqila.
Ento ta. Beijo.
Eu estava brincando, Maria de Lourdes! Vamos conversar, eu te esperei tanto que perdi o sono. Voc no acha que tem sado
muito mais do que deveria, filha? Toda
noite tem uma coisa nova para fazer, uma festa nova para ir. Que festas so essas? Quem te chama para essas festas?
por que voc paga para ir s festas? Quem d
essas festas? Quem vai a essas festas? Quem so as pessoas que vo as festas com voc? So bacanas? Ningum  viciado em
txico, no, n?
Boa-noite, me.
Boa-noite? Est bem. Descanse bastante, amanh a gente continua.
Meu namorado pode dormir aqui em casa?
Estou saindo com o Cacaso h seis meses, o negcio fica mais srio a cada dia. Como no estamos de brincadeira e nos gostamos
de verdade, resolvi checar com a minha
me algo que me angustiava.
O Cacaso pode dormir aqui em casa?
Sem tirar o olhar da tela do computador, sem mexer um s msculo da face e sem tirar os dedos do teclado, ela respondeu,
cndida:
Pode.
Levei um susto.
Pode? Mesmo?
Claro, querida.
Sa do escritrio radiante com a notcia, embora ainda chocada com ela. Passei tantos meses namorando espremida dentro do
carro, nem acredito que minha me deixou
assim, fcil. Bom saber que ela est mais aberta, mais liberal, mais sculo XXI. Liguei para o Cacaso para dar a novidade.
Hoje mesmo ele vem dormir aqui, me avisei, assim que desligamos o telefone.
Ele? Ele quem?
O Cacaso, u.
O Cacaso vem dormir aqui? No me diga, Maria de Lourdes! Por qu? O que aconteceu com a casa dele?
Est tudo timo com a casa dele.
Ento por qu?
Porque voc deixou!
Jamais deixaria um absurdo desses. Imagina, um cara maior que eu vir dormir na minha casa com a minha filhinha pequenininha
ao alcance da mo! Era s o que faltava!
Ento por que disse que ele podia dormir aqui?
Nunca disse isso.
Eu fui h meia hora no seu escritrio perguntar se.
A Cacau podia dormir aqui.
O Cacaso!
No! exclamou, surpresa, olhos saltando do rosto.
Sim! Agora j disse para ele que tudo bem e vai ser superchato desmarcar.
No vai ficar nada superchato desmarcar. Ligue e diga que houve uma falha na comunicao. Isso vive acontecendo entre mes e
filhas.
Ele vai achar que voc no gosta dele. Pode ficar triste, magoado.
Ele que fique magoado vinte vezes por dia! Onde j se viu querer dormir na minha casa tendo sua prpria casa? Pode tratar de
desmarcar. Imagina o que os vizinhos
no iam falar de voc trazendo um homem para dentro do apartamento, Maria de Lourdes?
No  um homem qualquer,  o meu namorado! E eu no ligo para os vizinhos!
Nem eu. Mas que eles iam falar, ah!, isso iam!
Deixa, me! Por favor!
No, Maria de Lourdes! J vi esse filme. Depois o menino se acostuma com a mordomia e vai ficando, ficando, e eu no tenho
dinheiro para sustentar mais uma cabea,
no!
Fala srio, me!
Estou falando, o Cacaso tem um apetite de leo, come por dois. Depois, com tanta convivncia, aposto que em pouco tempo voc
engravidaria e, sem dinheiro para
comprar um apartamento, pediria para morar aqui com ele e a criana. E eu no quero que a minha casa vire um cortio.
Caraca, me, como voc  irritante. Tudo o que eu estou te pedindo  para o meu namorado dormir aqui esta noite. S isso.
S? Maria de Lourdes, voc perdeu o juzo? Acha que sua casa  o qu? Motel? Isso aqui  uma casa de famlia, de respeito.
Eu no ia desrespeitar famlia nem a casa, me. S queria namorar de forma mais confortvel e sem correr risco nos mirantes.
Mirante? Voc namora em mirante, Maria de Lourdes?  perigoso! E  antigo tambm. Sua me namorou muito em mirante.
, me? Voc pegou muitos caras antes de conhecer o papai?
No peguei ningum, Maria de Lourdes! Que palavreado vulgar! bronqueou Infelizmente quase no namorei. S uns trs gatos
pingados. Eu era muito difcil, ao
contrrio de voc.
Eu estou apaixonada pelo Cacaso, me. Deixa ele dormir aqui. Alm de me adorar e me tratar como princesa, ele  uma pessoa
linda, batalhadora, trabalhadora, superesforada.
E da? disse ela sem se comover nem um pouco com o currculo do meu namorado.
Pinta, toca piano.
Piano? Que chique, Maria de Lourdes. Enfim um rapaz de boa estirpe.
Um sorriso orgulhoso tomou conta do seu semblante. Bingo!
Vai deixar?
Hum. Posso deix-lo dormir aqui, sim, mas com uma condio.
O que voc quiser! O que voc quiser!
Voc dorme na cama comigo, trancada no meu quarto, s sai quando eu sair. Ele dorme no sof da sala.
Mas a ns no vamos dormir juntinhos.
Dormir juntinhos? Que petulncia, Maria de Lourdes! Voc estava pensando em dormir com o seu namorado na mesma cama, na minha
casa?
Claro.
Era s o que me faltava! Nem em sonho isso vai acontecer. Pode tirar o cavalinho da chuva.
Por qu? Todas as mes deixam os namorados dormirem em casa com as filhas.
Que mes, cara-plida? Minha analista disse que eu no preciso fazer nada que me violente s para ser moderna.  no e
pronto. Ligue e desmarque.
Liguei e desmarquei. Mas, ao contrrio do que eu mesmo acreditava, fiz isso sem nenhum rancor.  que pensei bem e acabei
concordando com a minha me. Se s a idia
de a filha dormir em casa com o namorado a deixa to desconfortvel, melhor no levar adiante. E eu no vou morrer se no dormir
com o Cacaso. O Cacaso no vai morrer
se no dormir comigo. Ento, a gente espera at eu ganhar dinheiro para ter meu prprio ap. Sem pressa.
Se eu fosse mais nova talvez me rebelasse e desse aqueles tpicos ataques de adolescente. Mas do alto da minha maturidade de 19
anos, preferi no me estressar e
seguir  risca o que minha me sempre ensinou: para conviver bem uma ou mais pessoas sob o mesmo teto  preciso aprender a
ceder. E minha me  to bacana, sempre
faz tantas concesses por mim. hoje foi a minha vez de ceder. E posso garantir, no doeu quase nada.
20 anos.
Uns quilinhos a mais.
Morar com a me  bom, mas s vezes  chato, chato. Um exemplo? O passatempo atual da minha  passar o dia a me lembrar o que
eu preferia esquecer, que a balana
acusou uns quilos a mais a ltima vez que me pesei.
Maria de Lourdes, essa roupa no te valoriza. Voc est gorda, minha filha. Talvez meia Maria de Lourdes entrasse nessa
cala, uma inteira, nem pensar. Gente gorda
no pode achar que  magra e querer usar roupa de gente magra. Fica pavoroso.
Gorda! Duas vezes a palavra gorda. E ela encheu tanto a boca que por um instante me passou a idia de que estava feliz com os
meus quilos a mais.
Eu no estou gorda. Apenas ganhei alguns quilinhos.
Cinco quilos e 300 gramas, ou seja, cinco quilos e meio, quase seis.
Que doce de me!
Obrigada por me lembrar com tanta exatido.
E o pior  que seu corpo engordou por inteiro, Maria de Lourdes. Voc est bochechuda, pescouda, brauda.
J sei! Voc me diz isso 30 vezes por dia!
Sovacuda.
No existe essa palavra!
Mas voc entendeu o que eu quis dizer.
Eu j cortei refrigerante da minha vida.
No adiantou nada, continua barriguda.
E peituda?
Hummm. no. Nem um pouco peituda.
Droga!
Mas muito, muito bunduda. E bunda quadrada, meio achatada, um terror. Voc precisa se cuidar, Maria de Lourdes!
Preciso de um spa, isso sim.
Spa? No diga sandice! Voc acha que tenho dinheiro para pagar um spa?
Spa  a abreviao de esparadrapo, me, e esparadrapo  spa de pobre!  s botar um na boca para parar de comer.
Ah, se fosse simples assim! No tem dieta, no tem spa, no tem ginstica que v te livrar da balana, v se conformando. Sua
me tem tendncia para engordar,
sua av tem tendncia para engordar e seu pai  gordo. Logo, ser gorda est no seu futuro.
O papai no  gordo!  forte.
Forte  gordo.
Claro que no!
Claro que .  s um jeito carinhoso de chamar uma pessoa de gorda. Eu, por exemplo, quando comento suas banhas com as minhas
amigas nunca, nunca me refiro a voc
como gorda, s como forte. Digo: minha filha era magra, mas agora est forte. Beeeem forte.
Minhas banhas? Voc comenta as minhas banhas com as suas amigas? Isso  o cmulo da falta de respeito! Ou seria da falta de
assunto?
Qual o espanto? Vai me dizer que voc acha que no tem carne sobrando nesse seu corpinho volumoso?
Eu no estou me achando to gorda assim.
Voc est uma baleia, querida.
Que raiva! Se no fosse minha me ia ouvir muito! Quem pediu sua opinio? Baleia  voc! Isso no  gordura,  excesso
de gostosura! No disse nada disso.
Mas o meu namorado Rmulo continua apaixonado por mim.
No se sabe at quando. seu namorado Rmulo  todo preocupado com a sade, com o que come. e voc relaxada desse jeito
com o seu prprio corpo, tsc, tsc, tsc.
Nem um ano de namoro vocs tm, ele pode pular fora num estalar de dedos.
Me! Se voc queria me irritar, parabns, conseguiu, no precisa mais se esforar.
A verdade di, eu sei, filha. No seu caso, a verdade pesa. Mas se eu no te disser a verdade quem vai dizer? Duvido que
alguma amiga sua tenha coragem de falar
que voc est parecendo um hipoptamo de saia.
Fala srio, me!
Um filhote de hipoptamo, Maria de Lourdes! tentou consertar.
Ah, sim, agora estou aliviada.
No d para discordar da mame, filhota. voc est toda redondinha, parece at que casou.
Por que  que todo mundo que casa engorda e enfeia?
No sei. Sei que depois do casamento meus culotes aumentaram dez centmetros.
Dez centmetros? Vou comear o regime na segunda decretei.
Hoje.
Amanh.
Assim que eu gosto de ver! Mostre a sua fora de vontade, Maria de Lourdes!
Cortarei doces e bobagens durante as refeies. E passarei a caminhar diariamente. Vou perder rapidinho, voc vai ver s.
Maravilha! Comeamos a nossa dieta amanh!
Comeamos?
Claro! Uma fica de olho na outra, uma incentiva a outra e vigia para nenhuma das partes cair em tentao.
Me! Por um acaso voc est me induzindo a pensar que estou gorda s pra eu te ajudar na sua dieta?
Lamento informar, mas voc est gorda mesmo, minha filha, parece uma escultura do Botero. Quanto  dieta. ns duas juntas
podemos dar fora uma  outra, no
deixar a peteca cair.
Mas vou logo avisando que quero perder s dois desses cinco quilos que ganhei.
Seis, voc quer dizer. Mas por qu?
Porque eu estou me achando uma gostosona e porque o meu namorado Rmulo me acha linda com as formas mais arredondadas.
ele diz que eu fico. mais mulher sussurrei
perto de seu ouvido.
Maria de Lourdes! Olha o respeito! chiou, para logo depois emendar: Que homem  esse que te acha bonita gorda? Onde voc
achou esse homem que admira formas
arredondadas? Trs vivas para o seu namorado Rmulo! Viva! Viva! Viva! No o deixe escapar, minha filha, esse rapaz  de ouro!
O armrio materno.
Eu e minha me no temos o gosto nada parecido. Ela  adepta do estilo perua ps-moderna, caindo eventualmente para o estilo
trabalhadora do Brasil. Eu gosto do
casual agressivo, do esportivo chique, do bsico detalhista. Mas em alguns raros assaltos a seu guarda-roupa, j consegui
pinar umas duas ou trs peas interessantes.
S que minha me no gosta muito de me emprestar suas coisas.
Com esse sapato voc no vai mesmo! A senhorita me fez o favor de estragar o salto de todos os meus sapatos! Todos! E no
botou para consertar, no! Eu que paguei
o conserto.
Eu vou pagar, me! No precisa jogar na cara. S no quero consert-los agora porque acho perda de tempo. Melhor ferrar os
sapatos mais um pouco, assim eu vou
ao sapateiro uma vez s.
Onde  que voc tem ido com os meus sapatos, posso saber? Pelo estado da calamidade deles, suas festas devem acontecer em
florestas ou ruas de lama, pedras e paraleleppedos.
Ai, me, que exagero.
Exagero? Se os saltos no voltam quebrados voltam descascados, arranhados, tortos. Voc no sabe andar de salto alto,
maria de Lourdes, encare os fatos. Voc no
anda, minha filha, voc marcha. Pisa com uma fora que quase fura o cho. Saltos altos e finos exigem delicadeza, elegncia,
duas coisas que voc no tem. Por isso,
a partir de agora compre seus prprios sapatos de salto alto.
Mas eu quase no uso salto, s para sair  noite! No quero gastar dinheiro com sapato, preciso pegar os seus emprestados.
argumentei. E agora? Estamos num impasse.
Impasse? Que impasse? Os sapatos so meus e eu no quero emprest-los para voc. No tem impasse nenhum. Pega os sapatos da
malena.
Que cala dois nmeros abaixo do meu? Ah, sim, claro debochei. Como voc  imprestvel, me.
Por que ser? Ser por conta do leno de seda que saiu com voc e voltou manchado de vinho?
E era o nico leno seu que eu gostava. lamentei.
Para a sua sorte eu no gostava muito dele, por isso no dei um ataque. Porque se fosse o leno que  uma imitao perfeita
de Chanel.
Aquele leno  medonho. Jamais pegaria emprestado.
Medonho? No diga sandice, Maria de Lourdes! Ele  um espetculo!
De horrores. Pior do que ele s o vestido abbora, branco e verde, que parece uma cortina.
No devaneie, Maria de Lourdes! Aquele vestido foi feito com costureira das antigas.
A verdade di, me. Fazer o qu?
E meus brincos? Aposto que voc j pegou meus brincos para dar uma voltinha.
Que brincos? As minirvores de Natal e os adereos de escola de samba? Nunca peguei, nem nunca vou pegar, pode ficar sossegada.
Temos estilos diferentes, me.
Por isso eu quase no pego nada no seu armrio.
At parece, voc adora o meu estilo.
No consegui segurar a risadinha cnica que brotou dentro de mim.
No seu armrio, o que eu pego mesmo  sapato, que, no sei como, voc sabe comprar direitinho. De roupa, s um vestido de
brech e uma saia preta comprida.
e ao contrrio do que voc acabou de dizer, no, eu no gosto do seu estilo.
No gosta? Por qu?
Acho voc zero estilo, zero elegncia, zero atitude.
Peguei pesadssimo. Pisei no seu ponto fraco.
Desenvolva esse raciocnio, Maria de Lourdes. pediu sria.
Eu te acho cafona, u. Jeca. No  assim que se dizia no seu tempo?
Jeca? Voc me acha Jeca? Assim voc est magoando a mame!
No gosto do seu estilo, me, s isso. No precisa fazer drama.
Pois fique sabendo que eu tambm no gosto do seu.
Beleza, estamos quites.
Eu  que te acho cafona, jeca e sem gosto. Voc se veste igual a todo mundo. Eu, no! Eu tenho personalidade, crio minha
prpria moda.
Beleza.
Voc no. Voc s quer saber de camisetas bsicas, pretinhos bsicos, calas jeans bsicas, chinelos bsicos. quer coisa
mais cafona que ser bsica?
Eu no me acho cafona.
Ningum se acha cafona, mas todo mundo acha todo mundo cafona.
Cafona est essa conversa, viu? Ns estamos falando de estilo, cada uma tem o seu, timo. No tem com o que se estressar.
Voc no tem noo do que est dizendo, Maria de Lourdes. Ningum com 20 anos sabe o que  estilo. Ningum com 20 anos
encontrou seu estilo. Para conversar sobre estilo
com voc, melhor eu esperar uns dez anos.
Agora ela pegou pesado.
Posso at no ter estilo, mas pelo menos eu no me deixo engrupir por vendedor.
Eu tambm no. S s vezes.
Me!
T, t! Muitas vezes.
Voc cai na conversa de qualquer camel.
 que eles me juram de ps juntos que o brinco no vai ficar preto, eu acredito e compro.
T bom, me, vamos parar com esse papo, seno a gente vai acabar brigando.
Est bem,  melhor, mesmo.
J que voc no vai me emprestar o sapato, posso pegar ento aquele colar de pedras verdes?
No.
Juro que no estrago.
No.
21 anos.
Vo solo.
Voc tem certeza de que  isso que voc quer?
Absoluta.
Com olhos e clios encharcados, ela me deu mais um abrao esmagado. Era o dcimo, dcimo primeiro, por a. Mas parecia o ltimo
daquela manh em que, de malas prontas,
eu me despedia de uma era. Dentro de alguns instantes, fecharia a porta e deixaria para trs o apartamento e todas as histrias
que vivi dentro dele.
Ah, se as paredes falassem! Eu sei que falei por elas. E como! Mame tambm falou. Dez vezes mais que eu. Malena e Mam falaram
e continuam, como a mame, falando
muito, sempre. Enquanto morou aqui, meu pai, verdade seja dita, tambm falou pelos cotovelos. Somos uma famlia de comunicao.
Literalmente, j que eu me formo
em Jornalismo no ano que vem e o Mam demonstra srias inclinaes para a profisso. Malena j avisou que quer ser mdica, mas
meus pais preferem acreditar que,
em vez disso, ela se tornar uma famosa jornalista especializada em sade.
Agora acabou o que era doce. Tenho de ir. Mesmo. Os dilogos, as emoes e todos os momentos que importam vo ficar guardados
numa gavetinha muito especial da memria.
Toda vez que der saudade  s ir l, abrir, relembrar e matar a saudade.
Saio tranqila, boba de felicidade, com a sensao indescritvel de quem realiza um sonho. Com a grana do estgio, consegui
dizer sim  proposta de uma colega de
turma para dividir um minimicromicroapartamento em Copacabana, Que  perto da minha faculdade e do meu estgio, com ela e mais
quatro amigas.
Deciso dura de ser tomada, afinal, com a minha me, alm de casa, comida e roupa lavada, sempre tive amor, ateno e colo.
mas estava desgastante ir da Tijuca para
a Urca, da Urca para o Flamengo e do Flamengo para a Tijuca todo santo dia. Minha me no reagiu nada bem quando eu contei a
novidade.
No diga sandice, Maria de Lourdes! Voc  um beb! ela esperneou, mo no peito, expresses de diva de pera.
Mas eu vou vir sempre aqui.
No  a mesma coisa! Ai, Deus, a minha filha no gosta de mim! O que foi que eu fiz?
Me, que drama desnecessrio! Eu te amo, voc sabe disso. Mas preciso viver minha vida.
Depois de muito choro, de muito abrao e de muitas juras de que a visitaria toda a semana, mame viu que a mudana era a melhor
soluo e conformou-se.
Levou suas bonecas, seus bichinhos de pelcia? perguntou, lgrimas nos olhos.
No. Vou deixar tudo a.
No acredito! Jurei que fosse me livrar daquela tralha! Aquilo s serve para acumular poeira.
Lamento, me, mas eles no cabem na minha casa nova.
E sua foto com o Tio Patinhas? Tirei do porta-retratos da sala e botei na sua mala, para voc enfeitar a casa nova.
No acredito! Aquela foto  pssima, estou horrorosa nela, voc que insistiu para bater!
E cobertores, lenis, essas coisas? Pegou tudo direitinho?
Sim.
Como voc vai fazer para lav-los?
Acumulo a roupa suja at fazer um monto e trago aqui quando vier te visitar.
De acumulo a roupa at um monto est corretssima. A segunda parte  que no vai acontecer. Recomendo que voc descubra
onde tem lavanderia na sua vizinhana
ou compre uma mquina de lavar.
;No cabe no apartamento.
No cabe nada nesse apartamento? Como  que vocs vo fazer com o sof?
Que sof? No tem sof, tem s uma poltrona e uma cadeira.
E onde as pessoas vo sentar?
Na poltrona, na cadeira ou no cho, u.
No cho?
Estilo oriental, me,  s levar na esportiva.
E as camas?
Tudo beliche.
Para descobrir segredo, voc sabe,  s botar o chinelo em cima da barriga da pessoa quando ela estiver dormindo e comear a
fazer perguntas.
Fala srio, me! Eu no quero descobrir segredo de ningum. Segredo  segredo, a pessoa me conta se quiser.
Ah,  que eu quero dar dicas, mes do dicas quando os filhos saem de debaixo de sua saia.
Ento trate de me dar uma dica melhor.
Deixe-me ver, deixe-me ver. j sei! Antes de sair no deixe de conferir se todas as luzes esto apagadas.
T. Boa dica.
Observe os prazos de validade antes de comprar.
Beleza.
No se drogue.
Nunca!
No solte pum de janela fechada, voc disse que o apartamento  um ovo e seu pum  pum de categoria.
T, me, pode deixar concordei, com um sorriso.
No fale com estranhos.
Manh! Se eu no falar com estranhos, no caso!
 verdade,  verdade, Deus me livre.
;Tambm no  para Deus me livre! n?
Tem razo, filhota. Ah, sim! Cuidado ao atravessar a rua!
Me, eu tenho 21, no 2 + 1!
T! T! Lembrei de uma dica importantssima: compre um aspirador porttil,  a inveno do sculo.
Vou botar na minha lista de desejos de aniversrio, quem sabe assim eu no ganho um de presente?
Entendi a indireta, est bem, eu dou o aspirador.
Oba!
Outra coisa: no namore mais meninos do tipo adrenalina. No quero mais ver voc pulando de asa-delta, de pra-quedas, de
bungee jump, cuspindo fogo. nada disso!
E motoqueiro, nem pensar! Fora de cogitao!
T timo, me. Mais dicas?
Tenho. No perca o hbito de abraar quem voc ama.
X comigo.
E no faa sexo sem amor.
, me. a eu no posso prometer impliquei.
Maria de Lourdes, olha o respeito! bancou a rspida para logo depois rir cmplice comigo.
Passamos alguns segundos com os olhos grudados uma na outra, sem piscar. O que se passava pela cabea dela eu no sei.
na minha, um monte de cenas da minha vida,
cenas engraadas, desastradas, tristes. cenas com ela.
Vou sentir saudades das nossas conversas, me.
Eu tambm. Muita.
At das nossas brigas.
At. Aprendi muito com elas. Aprendi muito com voc.
Jura? reagi, surpresa.
Se voc tiver aprendido comigo um dcimo do que eu aprendi com voc, serei uma me para l de feliz, pois vou saber que te
criei muito bem para esse mundo doido
a de fora.
Pra, me! Assim eu vou chorar!
Agarrei minha mezona e a enchi de beijos. Depois disse:
Ainda vamos aprender muito uma com a outra. No  porque estou saindo de casa que vou deixar de aprender com voc.
temos a vida toda pela frente.
Arr. disse ela baixinho, enxugando as lgrimas, evitando me olhar nos olhos para no abrir ainda mais a torneira.
Depois de me despedir de nariz inchado de todo mundo, eu me virei e fechei a porta, partindo para uma nova etapa da minha vida.
Quando sa do prdio, Helosa e Ben
j me esperavam no carro. Do meu agora antigo apartamento, veio o ltimo aviso:
Maria de Lourdes! No se esquea de s deixar o tnis do chul na rea de servio ou do lado de fora da janela! Seno as
meninas no vo mais conseguir dormir!
Olhei para cima com cara de brava, mas abri um sorriso quando vi minha famlia debruada na janela para me dar at logo.
minha me me encarava como quem encara
uma criana indefesa. Naquele momento, me emocionei e tive a gostosa certeza de que ela no vai mudar nunca, por mais que eu
cresa.
Entrei no carro e Hel brincou:
No adianta. Me  tudo igual, s muda de endereo. L em casa foi a mesma coisa na hora da despedida.
. concordei sorrindo, antes de abrir o vidro para o ltimo recado familiar: Eu no tenho chul!
Tem sim! berrou minha me, toda chorosa.
Um beijo, me! E obrigada por tudo! Eu te amo! gritei, l do fundo da alma.
Eu tambm, minha filha. E quando chegar ao apartamento me liga!
No tive tempo de responder. O carro arrancou, as lgrimas escorriam.
fim.
